domingo, 28 de junho de 2009

Gilberto Gil

Conheci mesmo Gilberto Gil através das obra da Elis e da Bethânia. Gosto muito das letras dele, me remetam ao que eu acredito - não exatamente o que eu sou, o que eu acredito mesmo, onde eu seguro pra não cair.

O COMPOSITOR ME DISSE


O compositor me disse que eu cantasse distraidamente essa canção
Que eu cantasse como se o vento soprasse pela boca, vindo do pulmão
E que eu ficasse ao lado pra escutar o vento jogando as palavras pelo ar
O compositor me disse que eu cantasse ligada no vento
Sem ligar pras coisas que eu quis dizer
Que eu não pensasse em mim nem em você
Que
eu cantasse distraidamente como bate o coração
E que eu parasse aqui
Assim


COPO VAZIO


É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar

É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar

É sempre bom lembrar
Guardar de cor
Que o ar vazio de um rosto sombrio
Está cheio de dor

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar

Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor
Que a dor ocupa a metade da verdade
A verdadeira natureza interior
Uma metade cheia, uma metade vazia
Uma metade tristeza, uma metade alegria
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar


DOS PÉS À CABEÇA


Eu estou onde está meu corpo

Meu corpo, onde estão os meus pés

Meus pés, onde está o chão

Ou então

Onde a cabeça

Com seu pensar em vão

Eu estou onde tudo esteja

Ou seja

Onde quer que esteja em mim

O céu, o chão, o não, o sim

A vontade de Deus

O meu corpo todo, eu acho

Vale quanto pesa e sente

Como pensa e é imenso

Como deve ser o vôo

Da terra pra lua

E a noite da lua

E a imensa viagem do dia do sol

E a continuação da imensidão

Pelo corredor da enfermaria

Daquele lugar aonde eu ia

Visitar meu namorado internado

Dado por louco

Por pouco, pouco, muito pouco

Pouco mesmo


BALADA DO LADO SEM LUZ


O mundo da sombra, caverna escondida

Onde a luz da vida foi quase apagada

O mundo da sombra, região do escuro

Do coração duro, da alma abalada, abalada

Hoje eu canto a balada do lado sem luz

Subterrâneos gelados do eterno esperar

Pelo amor, pelo pão, pela libertação

Pela paz, pelo ar, pelo mar

Navegar, descobrir outro dia, outro sol

Hoje eu canto a balada do lado sem luz

A quem não foi permitido viver feliz e cantar

Como eu

Ouça aquele que vive do lado sem luz

O meu canto é a confirmação da promessa que diz

Que haverá esperança enquanto houver

Um canto mais feliz

Como eu gosto de cantar

Como eu prefiro cantar

Como eu costumo cantar

Como eu gosto de cantar

Quando não tão a balada, a balada, a bala


AMARRA O TEU ARADO A UMA ESTRELA


Se os frutos produzidos pela terra

Ainda não são

Tão doces e polpudos quanto as peras

Da tua ilusão

Amarra o teu arado a uma estrela

E os tempos darão

Safras e safras de sonhos

Quilos e quilos de amor

Noutros planetas risonhos

Outras espécies de dor

Se os campos cultivados neste mundo

São duros demais

E os solos assolados pela guerra

Não produzem a paz

Amarra o teu arado a uma estrela

E aí tu serás

O lavrador louco dos astros

O camponês solto nos céus

E quanto mais longe da terra

Tanto mais longe de Deus


ORIENTE


Se oriente, rapaz

Pela constelação do Cruzeiro do Sul

Se oriente, rapaz

Pela constatação de que a aranha

Vive do que tece

Vê se não se esquece

Pela simples razão de que tudo merece

Consideração

Considere, rapaz

A possibilidade de ir pro Japão

Num cargueiro do Lloyd lavando o porão

Pela curiosidade de ver

Onde o sol se esconde

Vê se compreende

Pela simples razão de que tudo depende

De determinação

Determine, rapaz

Onde vai ser seu curso de pós-graduação

Se oriente, rapaz

Pela rotação da Terra em torno do Sol

Sorridente, rapaz

Pela continuidade do sonho de Adão


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