terça-feira, 28 de outubro de 2008

Um lugar onde eu possa estar pleno como quem deita na beira. É rangido de dente olhar esses rostos e querer tocar. Pesei que poderia ultrapassar mas permaneci. Depois voltei caminhando sozinho. Por mais que estivesse servindo, cumprindo, era um dia só meu, muito meu.Acho que também tenho mesmo aquela doença que faz imagianr coisas, criar possibilidades e sofrer com elas dentro da cabeça antes que algo real tenha de fato acontecido. Talvez isso me emagreça também. Talvez tudo me emagreça, talvez o peso de mim esteja me enfraquecendo. Talvez o peso do meu sorriso. Mas nem sempre basta. Os lábios gelados e com um gosto que me trasnporta a outros. Quem foi embora está sempre mais feliz. Acho que tenho o direito de desejar, embora me apavore a trsiteza desse alguém que eu não conheço, seu possível sofrimento, e seu sofrimento inerente. As cidades são as pessoas? ou as pessoas são as cidades? Eu levaria Pina Bausch para a Rua Bela. É rangido de dente ver essa gente passar, rangido que não se concretiza, fica no pré-movimento. Abre a boca, abre, tenta comer o ar, tenta pegar com a boca mesmo, comer. É isto.

Manoelzinho

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro
etc
etc
etc
Desaprender oito horas por dia ensina os princípios

Manoel de Barros. O livro das ingnorâças. Rio de Janeiro: Record, 2007. p 9

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Caminhando com uma sensação de leveza qeu não sei carregar. Andei tanto tempo na dor que agora, me libertando, não chego ali, logo ali onde tenho que chegar. Sei mas não consigo. Sei onde devo ir, como devo estar, mas não posso. De tanto estar comigo, de tanto me porteger e me entregar à minha angústia. "A tristeza é uma forma de egoísmo". Os que esquecem, os que lembram - isso denota alguma coisa? O que me dá vontade de chorar é esse quase. Fiquei para trás. E agora correr para onde? Não há estradas. Há horizontes por todos os lados, com grandes rostos nascendo e morrendo a qualquer momento, eles não anunciam hora nenhuma - se sobrepõem e se diluem, alguns me chamando, outros impassíveis, outros de lado. Há uma árvore seca. Mas não tenho par. Em vez de correr, me deito e beijo o chão com muita vontade.

sábado, 18 de outubro de 2008

Clichê

20 ANOS BLUE
(Sueli Costa e Vitor Martins)

Ontem de manhã quando acordei
Olhei a vida e me espantei
Eu tenho mais de vinte anos

Eu tenho mais de mil perguntas sem respostas
Estou ligado num futuro blue

Os meus pais nas minhas costas
As raízes na marquise
Eu tenho mais de vinte muros

O sangue jorra pelos furos
Pelas veias de um jornal
Eu não te quero, eu te quero mal

Essa calma que inventei, bem sei
Custou as contas que contei
Eu tenho mais de vinte anos

E eu quero as cores e os colírios, meus delírios
Estou lugado num futuro blue

Os meus pais nas minhas costas
As raízes na marquise
Eu tenho mais de vinte muros

O sangue jorra pelos furos
Pelas veias de um jornal
Eu não te quero
Eu te quero mal

sábado, 11 de outubro de 2008

Palavra

Acho que a capacidade de dizer ainda não está tão apurada. Tenho que conseguir chorar ou sorrir através do texto, me transformar em palavras ou palavras em mim. Ou vou levar tapas. Tudo o que tenho feito é saído por aí, provocando, até apanhar. Um dois três tapas. Me dá um vazio no peito e nas mãos.
E$stou transparente, mas tanto, tanto, que os olhares me atravessam sem ver os detalhes que existem entre a substância líquida. Escorro. Quando escrevo, quando digo essas tantas coisas, não quero provocar, ameaçar, torturar: quero apenas me dizer e jogar com a sorte, lançar umas sementes. As sementes não tem pretensão, elas sonham.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ausência

Escrevi um texto que começa assim: "Querido..." mas não vou postar porque você pode ler e eu vou me sentir ridículo. O texto é quente e cafona, como minha forma de sentir.

sábado, 4 de outubro de 2008

Quase 20

Duas semanas para completar os 20. E não me sinto com 20, nem com idade nenhuma. Me toco, me vejo, não sei quantos anos pareço ter, sinto ter. Ontem senti uma vontade muito grande, mas não a realizei. Hoje um dos meus prazeres se mostrou insuficiente. É preciso viver, viver grandemente. Tenho roçado a barra de minha calça pela vida, a ponta de meus dedos, meus olhos ferinos. Eu não sei como se dança, eu não sei dançar, sete e sete são catorze. Dez e dez são vinte. Vinte e dez são trinta. Um dia eu bem que disse: Sou Lucas Passarinho Flor-de-laranjeira Cadeira, 30 anos.
"...a sombra leve da morte passando sempre por perto, e o sentimento mais breve rola no ar e descreve a eterna cicatriz. Mais uma vez, mais de uma vez, quase que fui feliz."
Mas não tenho vontade nenhuma de me matar. Nenhuma mesmo.
É que me envergonho um pouco. Por ser tão inerte, por não me arriscar (de acordo com o mundo, porque até me arrisco bastante). Além disso a cobrança da família. Por que todos começaram a trabalhar com 15 anos e o Luquinhas não. Acho que quem faz faculdade na minha família é astro ou vagabundo.
Como sempre, há algo inexplicável acontecendo. Deve ser o tempo. Ele deve estar acontecendo.
Os compromissos para amanhã, os planos para o ano. Quais os planos para hoje, para agora? O que eu deveria fazer? Deveria me arrumar, me perfumar, e sair sozinho. Mas não. Estou aqui digitando meu desespero em vez de curá-lo efetivamente. "Efetivamente" não expressa bem. Diluir, jogar um balde d'água nele, esfregar com sabão, rir da cara dele. Me sentir pequeno e gostar disso. Olhar pra uma paisagem horizontal, abrir os braços e andar.
Uma vez falei aqui de colher meus frutos. Isso foi esclarecedor demais, não foi?

Sei que falam de mim, sei que zombam de mim
Oh Deus, como sou infeliz
Vivo à margem da vida, sem aparo ou guarida
Oh Deus, como sou infeliz
Já tive amores, tive carinhos
Já tive sonhos
Os desamores levaram minh'alma por caminhos tristonhos
Hoje sou folha morta que a corrente transporta
Oh Deus, como sou infeliz, infeliz
Eu queria um minuto apenas pra matar minhas penas
Oh Deus, como sou infeliz.

Não sinto dor nenhuma quando escuto isso. Fico é sorrindo. Aliás, escrevi essas música só porque acho ela bonitinha. Minha dor não tem som que a represente. Minha dor é silêncio. Minha dor é leve, pequena, e é silêncio. Às vezes eu acho que sou feliz à beça e não sei.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

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NÓS NOS ACHAMOS SUJEITOS FORMIDÁVEIS,MAS REALMENTE O SER HUMANO SÓ SE SALVA,QUANDO CHEGA A RECONHEÇER SUA HEDIONDEZ. É ISSO QUE PROCURO QUANDO EU ESCREVO, RECONHEÇER A HEDIONDEZ DO SER HUMANO


(NELSON RODRIGUES)