TRECHOS DA PEÇA QUE EU ESCREVIA HÁ UM TEMPO.
1
(O cenário remete a um cais.
Luz sobre o pai, sentado, na direita-baixa. Ele fala entre a nostalgia e a melancolia, como quem conta uma velha história para uma criança.)
PAI – Nós dançávamos nos bailes, porque havia muitos bailes, e corríamos por aí, livres, como crianças. Rolávamos na areia, olhávamos as estrelas. Fazíamos planos. Ela sonhava muito.sonhava por mim e por ela. Gostava do mar, gostava de ver seu rosto refletido na água, de ver a imagem... oscilando. Gostava das ondas levando e trazendo seu rosto. Levando e trazendo...
(No final de sua fala a luz foi caindo enquanto o centro do palco foi sendo iluminado: Maria e Paulo sentados, lado a lado, diante do mar. Em tom de idílio, a moça continua a história contada pelo pai.)
MARIA – ...até que um dia... um dia ela quis ir atrás do seu rosto...
PAULO – E morreu.
MARIA – E morreu. Como é que você sabe que foi assim?
PAULO – Você já contou essa história. Você conta... sempre.
MARIA – Desculpe.
PAULO – Eu não me incomodo. Eu gosto.
MARIA – Meu pai me contou essa história há algum tempo. Eu sempre peço pra ele contar, ele conta tão bem, é como se ele sonhasse. Os olhos ele brilham quando fala dos bailes, da areia. Eles elhavam as estrelas, eles... eram tão felizes. E olhavam o sol se pondo.
PAULO – Como nós agora.
MARIA – E eram tão felizes.
PAULO – Como nós agora.
MARIA (um pouco assustada com a comparação) – Como nós agora.
(Silêncio.)
MARIA – Ela era tão bonita. Quer dizer: papai diz que era, eu não lembro, eu não lembro de nada, de nada. O papai diz que era bonita como eu.
PAULO – Você me ama?
MARIA – Amo.
(Silêncio.)
MARIA – Meu amor, o que tem depois do mar? Do outro lado, o que é que tem?
PAULO – Não sei.
MARIA – Eu queria saber. Eu queria tanto saber.
PAULO – Por que você está falando essas coisas? Você não tem medo?
MARIA – Não.
PAULO – Devia ter.
MARIA – Por quê?
PAULO – Tua mãe – não teve medo.
MARIA (sentida) Por que você flou dela? Minha mãe, ela só queria ver o rosto...
(Luz sobre o pai e a madrasta de Maria. Ele tem um quê de patético, um ar de perdido, confuso. A madrasta, durante o diálogo, vai passando da indiferença, da secura, para a impaciência.)
PAI – Eles devem estar na beira do mar.
MADRASTA – Nós também.
PAI – Eles estão muito na beira.
MADRASTA – Nós também estamos muito na beira.
PAI – Eu falo porque tenho medo.
MADRASTA – Medo do quê?
PAI – De que um dia ele a empurre, a empurre sem nem usar as mãos. Eu vivo pensando nisso. Ela caindo com um sopro. Ele soprando e ela caindo. Eu não confio no Paulo. Faz tanto tempo que eu nem durmo pensando nisso.
MADRASTA – É claro que você dorme.
PAI – Não, eu não durmo.
MADRASTA – Você com suas histórias!
PAI – Como é que você sabe?
MADRASTA – Você deita todas as noites. Pede para eu ir para cama também. Eu vou, como sono ou sem sono. Você dorme. Eu é que não durmo, fico ouvindo seus roncos, ouvindo esse mar. Aí você acorda de manhã e eu já estou de pé. Você se espreguiça, boceja, se levanta. Toma o café. E é só. Eu acho que é só.
PAI – Que é que você quer dizer com isso?
MADRASTA – Só quero dizer o que eu disse: que você dorme, e sonha com essas coisas.
PAI – Você quer saber mais do que eu?
MADRASTA – Por que é que você sonha com ele empurrando tua filha? Você nunca sonhou com ela caindo sozinha?
PAI – Por que é que minha filha ia cair sozinha?
MADRASTA – Não sei. Você é o pai. Você é que deve saber.
PAI (subitamente a observa, fala com um ar distante e desgostoso) – Sua cara, esse seu rosto... Você tem uma cara de... perda.
(Luz sobre Paulo e Maria.)
MARIA – Paulo. Eu vi um barco.
PAULO – O quê?
MARIA – Um barco. Bonito. Com vela. E gente dentro.
PAULO – Um barco?
MARIA – Eu já tinha esquecido como é gente, Quer dizer: além de nós... Os rostos dos outros. Eu já estava sentindo que só havia nós quatro no mundo, como se o tempo tivesse nascido com a gente fosse acabar quando a gente morresse; como se além do mar não tivesse mais nada, e nem lá atrás, atrás dos montes. Como se tudo fosse aqui.Mas eu sentia. Eu tenho certeza agora.
PAULO – Quando você viu?
MARIA – De manhã?
PAULO – Por que você não me contou?
MARIA – Não sei. Eu fiquei com medo. Eu acho que é o menino. Ele que estava no barco.
PAULO – Que menino?
MARIA – Você não lembra dele?
PAULO – Não.
MARIA – Que estranho. Pensei que você lembrasse. Ele brincava comigo quando éramos crianças. Mas ele foi embora. E voltou agora. Voltou pra me contar o que tem do outro lado.
PAULO – Amor.
MARIA – Fala.
PAULO – Não vá se perder.
(Na mesa de jantar.)
PAI – Vocês estavam longe hoje. Onde foram?
MARIA – Fomos na praia.
PAULO (espantado) – Eu juro que não pus minha cara pra fora dessas janelas hoje...
MADRASTA – Ela está dizendo que você foram na praia.
MARIA – Eu nem me lembro.
(Comem.)
PAI (nitidamente para quebrar o silêncio) – A comida está muito boa hoje, mulher.
MARIA – É, está muito boa.
MADRASTA (seriamente, sendo abafada pelos elogios) – Obrigada.
PAULO – Está... com um sabor... especial.
PAI – É. Algo que lembra... sol. Um sabor que me lembra sol, entende?
PAULO – Um gosto forte.
MADRASTA – Obrigada.
(Silêncio. Não há nada para se dizer.)
MARIA –Depois do mar tem sol?
MADRASTA – Tem, minha filha.
MARIA – Sua comida tem cheiro de sol e gosto de luz.
MADRASTA (contida) – Eu tempero com minhas próprias lágrimas.
PAI (exaltando-se) – O que é isso? Como é que você diz uma coisa dessas, assim, diante de mesa, diante da minha filha?
MADRASTA (revelando certo cinismo) – Eu não queria dizer nada, eu disse, sem querer. Você sabe que eu nunca digo nada.
PAI – Você sempre diz, diz muitas coisas, você sabe disso.
MADRASTA – Eu digo? Eu nem percebo.
(Idem.)
PAI – O peixe está diferente.
PAULO – Prefiro o peixe do riacho.
PAI – Do riacho, do mar, tanto faz. Não é disso que eu estou falando. O peixe já não tem o mesmo sabor.
MARIA (com certo cansaço) – É porque é o mesmo, é exatamente por isso...
MADRASTA (interrompendo sem intenção) – Onde eu morava quando era criança havia um riacho.
PAI – Há riacho por tudo que é lado, em todos os lugares.
MARIA – Tem riachos do outro lado do mar?
PAI – Não sei, minha filha.
MARIA – Paulo. Tem rios lá do outro lado? Como é que eles são? Iguais?
PAULO – Tem, muitos rios.
MADRASTA – Isso eu mesma poderia supor. Se tem mar do outro lado tem que ter rio. Não são os rios que fazem o mar? (silêncio) Era o que meu avô dizia, ele sempre me ensinou. Então por que é que eu ia querer conhecer o mar, se eu tinha algo muito melhor?
MARIA (para Paulo) – Os rios do ouro lado não são muito mais bonitos?
PAULO – Não, Maria. São iguais. (levanta-se)
MARIA (para a madrasta) – Ele diz isso só pra não te ofender. Eu sei porque ele me conta. Do outro lado tudo é tão cheio de luz que esses seus olhos tristes cegariam. Lá não tem espaço pra lamentar e lembrar do passado como você faz. Porque lá todo mundo é feliz.
MADRASTA – Se eu cegasse como ela disse. Meus olhos iam preferir cegar mesmo, pra não enxergar essas luzes que não têm sentido. Sei o que Paulo conta. São noites cheias de luz. Imagino que as manhãs deles sejam escuras, (ri, irônica) devem apagar a luz do sol. Claro, porque ninguém ia suportar tanta luz o tempo todo.
PAI – Eu, por exemplo, não suporto a luz do farol.
MADRASTA – Do farol?
PAI – Quando minha mulher era viva, e quando nós éramos jovens, e havia mais gente, aqui, havia um farol. A luz dele me persegue até hoje, eu fecho os olhos e vejo. De noite é como se a luz dele ainda estivesse lá, iluminando nossa cama, nossa...
MADRASTA – ...solidão...
PAI – ...do mesmo jeito que iluminava aquele amor.
MADRASTA – Como as estrelas... Que já explodiram mas continuam brilhando.
PAI (espantado) – O quê?
MADRASTA (doce) – As estrelas. Essas estrelas que vemos já explodiram. Vovô me dizia. Mas a luz delas, a luz é o que a gente vê.
PAI – Você fala como se rogasse uma praga. Você é uma praga.
MARIA – A senhora lembra da minha mãe?
MADRASTA – Não.
MARIA – A senhora conheceu a minha mãe?
MADRASTA – Não.
MARIA – Meu pai falava que ela era muito parecida comigo.
MADRASTA – Você repete isso todo dia.
MARIA – E que ela era diferente da senhora.
(Pausa.)
MARIA – A senhora tem vontade de sair daqui?
MADRASTA – Por quê? Você tem?
MARIA – Eu tenho.
MADRASTA – E o seu marido?
MARIA – Ele vai comigo.
MADRASTA – Você sabe que não. Aí ele vai ficar só. Vai ter que buscar uma mulher pelas estradas, casar com qualquer uma.
MARIA – A senhora deve ter tido uma vida muito triste, né?
MADRASTA – Não.
MARIA – Por que a senhora é tão seca?
MADRASTA – Por que você é tão alegre?
MARIA – A senhora morava aonde?
MADRASTA – Longe.
MARIA – Depois daqueles montes?
MADRASTA – Depois. Bem depois. Você não ia gostar de lá.
MARIA – Por quê?
MADRASTA – Porque não tinha mar. Você adora o mar. Mas eu levava uma vida feliz. Éramos eu e minha mãe.
MARIA – Eu não quero saber.
MADRASTA – Você tem medo de acreditar, não é?
PAI – E as flores, como estão?
MADRASTA – Mortas.
PAI – Você não as rega?
MADRASTA – Quem rega é a tua filha. Regava. Parou de regar.
PAI – Por quê?
MADRASTA – Não sei. Pergunta pra tua filha.
PAI – A minha mulher gostava muito daquelas flores. Desde que fiquei doente as coisas começaram a mudar. O que é que está acontecendo? É porque estou aqui deitado.
MADRASTA – Não é porque você está deitado. Se estivesse de pé não faria diferença. E se as flores existem não é por causa da sua mulher. Onde eu vivia também havia flores, mais e mais bonitas, e não era por minha causa que elas existiam, disso tenho certeza. Tua mulher morreu, por que é que as flores não podem morrer também?
MARIA – O sol me acordava toda manhã. Eu saía por aí, catava conchas. Brincava com a areia. Na hora da maré alta voltava para casa. E ficava só olhando o mar.
Eu gostava de pular poças. E quando pulava pensava se o mar também não era uma grande poça e quem fosse maior do que eu poderia pula-lo:
- Papai, você pode pular o mar?
- O que, minha filha?
- O mar parece uma poça.
E assim como a água da poça se mexe, quando alguém pisa nela, ou cai uma pedra, talvez as ondas do mar sejam isso: os passos de Deus. O pé de Deus. (Muda de tom) Mas eu não acredito
PAULO – A areia pode ser mais inconstante que o mar. Ela é várias, muitas, muitos grãos, pedaços. O mar. O mar é único. Estranho como a inconstância do mar e a inconstância da areia, quando se encontram, ficam tão sólidas. A beira.
Eu sou um cais.
Sempre fui a beira em busca de um mar.

