quinta-feira, 31 de julho de 2008

Rascunhos antigos II (ou Pedaços de cais)

TRECHOS DA PEÇA QUE EU ESCREVIA HÁ UM TEMPO.

1

(O cenário remete a um cais.

Luz sobre o pai, sentado, na direita-baixa. Ele fala entre a nostalgia e a melancolia, como quem conta uma velha história para uma criança.)

PAI – Nós dançávamos nos bailes, porque havia muitos bailes, e corríamos por aí, livres, como crianças. Rolávamos na areia, olhávamos as estrelas. Fazíamos planos. Ela sonhava muito.sonhava por mim e por ela. Gostava do mar, gostava de ver seu rosto refletido na água, de ver a imagem... oscilando. Gostava das ondas levando e trazendo seu rosto. Levando e trazendo...

(No final de sua fala a luz foi caindo enquanto o centro do palco foi sendo iluminado: Maria e Paulo sentados, lado a lado, diante do mar. Em tom de idílio, a moça continua a história contada pelo pai.)

MARIA – ...até que um dia... um dia ela quis ir atrás do seu rosto...

PAULO – E morreu.

MARIA – E morreu. Como é que você sabe que foi assim?

PAULO – Você já contou essa história. Você conta... sempre.

MARIA – Desculpe.

PAULO – Eu não me incomodo. Eu gosto.

MARIA – Meu pai me contou essa história há algum tempo. Eu sempre peço pra ele contar, ele conta tão bem, é como se ele sonhasse. Os olhos ele brilham quando fala dos bailes, da areia. Eles elhavam as estrelas, eles... eram tão felizes. E olhavam o sol se pondo.

PAULO – Como nós agora.

MARIA – E eram tão felizes.

PAULO – Como nós agora.

MARIA (um pouco assustada com a comparação) – Como nós agora.

(Silêncio.)

MARIA – Ela era tão bonita. Quer dizer: papai diz que era, eu não lembro, eu não lembro de nada, de nada. O papai diz que era bonita como eu.

PAULO – Você me ama?

MARIA – Amo.

(Silêncio.)

MARIA – Meu amor, o que tem depois do mar? Do outro lado, o que é que tem?

PAULO – Não sei.

MARIA – Eu queria saber. Eu queria tanto saber.

PAULO – Por que você está falando essas coisas? Você não tem medo?

MARIA – Não.

PAULO – Devia ter.

MARIA – Por quê?

PAULO – Tua mãe – não teve medo.

MARIA (sentida) Por que você flou dela? Minha mãe, ela só queria ver o rosto...

(Luz sobre o pai e a madrasta de Maria. Ele tem um quê de patético, um ar de perdido, confuso. A madrasta, durante o diálogo, vai passando da indiferença, da secura, para a impaciência.)

PAI – Eles devem estar na beira do mar.

MADRASTA – Nós também.

PAI – Eles estão muito na beira.

MADRASTA – Nós também estamos muito na beira.

PAI – Eu falo porque tenho medo.

MADRASTA – Medo do quê?

PAI – De que um dia ele a empurre, a empurre sem nem usar as mãos. Eu vivo pensando nisso. Ela caindo com um sopro. Ele soprando e ela caindo. Eu não confio no Paulo. Faz tanto tempo que eu nem durmo pensando nisso.

MADRASTA – É claro que você dorme.

PAI – Não, eu não durmo.

MADRASTA – Você com suas histórias!

PAI – Como é que você sabe?

MADRASTA – Você deita todas as noites. Pede para eu ir para cama também. Eu vou, como sono ou sem sono. Você dorme. Eu é que não durmo, fico ouvindo seus roncos, ouvindo esse mar. Aí você acorda de manhã e eu já estou de pé. Você se espreguiça, boceja, se levanta. Toma o café. E é só. Eu acho que é só.

PAI – Que é que você quer dizer com isso?

MADRASTA – Só quero dizer o que eu disse: que você dorme, e sonha com essas coisas.

PAI – Você quer saber mais do que eu?

MADRASTA – Por que é que você sonha com ele empurrando tua filha? Você nunca sonhou com ela caindo sozinha?

PAI – Por que é que minha filha ia cair sozinha?

MADRASTA – Não sei. Você é o pai. Você é que deve saber.

PAI (subitamente a observa, fala com um ar distante e desgostoso) – Sua cara, esse seu rosto... Você tem uma cara de... perda.

(Luz sobre Paulo e Maria.)

MARIA – Paulo. Eu vi um barco.

PAULO – O quê?

MARIA – Um barco. Bonito. Com vela. E gente dentro.

PAULO – Um barco?

MARIA – Eu já tinha esquecido como é gente, Quer dizer: além de nós... Os rostos dos outros. Eu já estava sentindo que só havia nós quatro no mundo, como se o tempo tivesse nascido com a gente fosse acabar quando a gente morresse; como se além do mar não tivesse mais nada, e nem lá atrás, atrás dos montes. Como se tudo fosse aqui.Mas eu sentia. Eu tenho certeza agora.

PAULO – Quando você viu?

MARIA – De manhã?

PAULO – Por que você não me contou?

MARIA – Não sei. Eu fiquei com medo. Eu acho que é o menino. Ele que estava no barco.

PAULO – Que menino?

MARIA – Você não lembra dele?

PAULO – Não.

MARIA – Que estranho. Pensei que você lembrasse. Ele brincava comigo quando éramos crianças. Mas ele foi embora. E voltou agora. Voltou pra me contar o que tem do outro lado.

PAULO – Amor.

MARIA – Fala.

PAULO – Não vá se perder.

2

(Na mesa de jantar.)

PAI – Vocês estavam longe hoje. Onde foram?

MARIA – Fomos na praia.

PAULO (espantado) – Eu juro que não pus minha cara pra fora dessas janelas hoje...

MADRASTA – Ela está dizendo que você foram na praia.

MARIA – Eu nem me lembro.

(Comem.)

PAI (nitidamente para quebrar o silêncio) – A comida está muito boa hoje, mulher.

MARIA – É, está muito boa.

MADRASTA (seriamente, sendo abafada pelos elogios) – Obrigada.

PAULO – Está... com um sabor... especial.

PAI – É. Algo que lembra... sol. Um sabor que me lembra sol, entende?

PAULO – Um gosto forte.

MADRASTA – Obrigada.

(Silêncio. Não há nada para se dizer.)

MARIA –Depois do mar tem sol?

MADRASTA – Tem, minha filha.

MARIA – Sua comida tem cheiro de sol e gosto de luz.

MADRASTA (contida) – Eu tempero com minhas próprias lágrimas.

PAI (exaltando-se) – O que é isso? Como é que você diz uma coisa dessas, assim, diante de mesa, diante da minha filha?

MADRASTA (revelando certo cinismo) – Eu não queria dizer nada, eu disse, sem querer. Você sabe que eu nunca digo nada.

PAI – Você sempre diz, diz muitas coisas, você sabe disso.

MADRASTA – Eu digo? Eu nem percebo.

3

(Idem.)

PAI – O peixe está diferente.

PAULO – Prefiro o peixe do riacho.

PAI – Do riacho, do mar, tanto faz. Não é disso que eu estou falando. O peixe já não tem o mesmo sabor.

MARIA (com certo cansaço) – É porque é o mesmo, é exatamente por isso...

MADRASTA (interrompendo sem intenção) – Onde eu morava quando era criança havia um riacho.

PAI – Há riacho por tudo que é lado, em todos os lugares.

MARIA – Tem riachos do outro lado do mar?

PAI – Não sei, minha filha.

MARIA – Paulo. Tem rios lá do outro lado? Como é que eles são? Iguais?

PAULO – Tem, muitos rios.

MADRASTA – Isso eu mesma poderia supor. Se tem mar do outro lado tem que ter rio. Não são os rios que fazem o mar? (silêncio) Era o que meu avô dizia, ele sempre me ensinou. Então por que é que eu ia querer conhecer o mar, se eu tinha algo muito melhor?

MARIA (para Paulo) – Os rios do ouro lado não são muito mais bonitos?

PAULO – Não, Maria. São iguais. (levanta-se)

MARIA (para a madrasta) – Ele diz isso só pra não te ofender. Eu sei porque ele me conta. Do outro lado tudo é tão cheio de luz que esses seus olhos tristes cegariam. Lá não tem espaço pra lamentar e lembrar do passado como você faz. Porque lá todo mundo é feliz.

4

MADRASTA – Se eu cegasse como ela disse. Meus olhos iam preferir cegar mesmo, pra não enxergar essas luzes que não têm sentido. Sei o que Paulo conta. São noites cheias de luz. Imagino que as manhãs deles sejam escuras, (ri, irônica) devem apagar a luz do sol. Claro, porque ninguém ia suportar tanta luz o tempo todo.

PAI – Eu, por exemplo, não suporto a luz do farol.

MADRASTA – Do farol?

PAI – Quando minha mulher era viva, e quando nós éramos jovens, e havia mais gente, aqui, havia um farol. A luz dele me persegue até hoje, eu fecho os olhos e vejo. De noite é como se a luz dele ainda estivesse lá, iluminando nossa cama, nossa...

MADRASTA – ...solidão...

PAI – ...do mesmo jeito que iluminava aquele amor.

MADRASTA – Como as estrelas... Que já explodiram mas continuam brilhando.

PAI (espantado) – O quê?

MADRASTA (doce) – As estrelas. Essas estrelas que vemos já explodiram. Vovô me dizia. Mas a luz delas, a luz é o que a gente vê.

PAI – Você fala como se rogasse uma praga. Você é uma praga.

5

MARIA – A senhora lembra da minha mãe?

MADRASTA – Não.

MARIA – A senhora conheceu a minha mãe?

MADRASTA – Não.

MARIA – Meu pai falava que ela era muito parecida comigo.

MADRASTA – Você repete isso todo dia.

MARIA – E que ela era diferente da senhora.

(Pausa.)

MARIA – A senhora tem vontade de sair daqui?

MADRASTA – Por quê? Você tem?

MARIA – Eu tenho.

MADRASTA – E o seu marido?

MARIA – Ele vai comigo.

MADRASTA – Você sabe que não. Aí ele vai ficar só. Vai ter que buscar uma mulher pelas estradas, casar com qualquer uma.

MARIA – A senhora deve ter tido uma vida muito triste, né?

MADRASTA – Não.

MARIA – Por que a senhora é tão seca?

MADRASTA – Por que você é tão alegre?

MARIA – A senhora morava aonde?

MADRASTA – Longe.

MARIA – Depois daqueles montes?

MADRASTA – Depois. Bem depois. Você não ia gostar de lá.

MARIA – Por quê?

MADRASTA – Porque não tinha mar. Você adora o mar. Mas eu levava uma vida feliz. Éramos eu e minha mãe.

MARIA – Eu não quero saber.

MADRASTA – Você tem medo de acreditar, não é?

6

PAI – E as flores, como estão?

MADRASTA – Mortas.

PAI – Você não as rega?

MADRASTA – Quem rega é a tua filha. Regava. Parou de regar.

PAI – Por quê?

MADRASTA – Não sei. Pergunta pra tua filha.

PAI – A minha mulher gostava muito daquelas flores. Desde que fiquei doente as coisas começaram a mudar. O que é que está acontecendo? É porque estou aqui deitado.

MADRASTA – Não é porque você está deitado. Se estivesse de pé não faria diferença. E se as flores existem não é por causa da sua mulher. Onde eu vivia também havia flores, mais e mais bonitas, e não era por minha causa que elas existiam, disso tenho certeza. Tua mulher morreu, por que é que as flores não podem morrer também?

7

MARIA – O sol me acordava toda manhã. Eu saía por aí, catava conchas. Brincava com a areia. Na hora da maré alta voltava para casa. E ficava só olhando o mar.

Eu gostava de pular poças. E quando pulava pensava se o mar também não era uma grande poça e quem fosse maior do que eu poderia pula-lo:

- Papai, você pode pular o mar?

- O que, minha filha?

- O mar parece uma poça.

E assim como a água da poça se mexe, quando alguém pisa nela, ou cai uma pedra, talvez as ondas do mar sejam isso: os passos de Deus. O pé de Deus. (Muda de tom) Mas eu não acredito em Deus. Nem nesse Deus que está longe de que meu pai fala, nem nesse Deus que Paulo diz que está dentro de nós. A oração que mamãe me ensinou eu só rezei quando esperei. Quando esperava por meu pai, quando ele saía nas suas andanças; quando esperava alguém que viesse, me segurasse pela mão e me fizesse atravessar o mar.

8

PAULO – A areia pode ser mais inconstante que o mar. Ela é várias, muitas, muitos grãos, pedaços. O mar. O mar é único. Estranho como a inconstância do mar e a inconstância da areia, quando se encontram, ficam tão sólidas. A beira.

Eu sou um cais.

Sempre fui a beira em busca de um mar.

Talvez Ofélia

Deixei a mochila ao lado da porta de entrada. Saio abruptamente, me levanto, me despeço no auge. Não fico no bar. Abraço a todos e digo que não. São pequenas formas de partir. Sim, Marcelo, eu devia casar com um marinheiro, permanecer, ficar, esperar – não ia fazer diferença: vivo inventado marinheiros e casando com eles em sonho. Pra sentir saudade, pra sentir qualquer coisa. Melhor a solidão da saudade que a solidão do nada.
Tenho me sentido simplesmente só, de braços cruzados, me abraçando, dormindo, me despenteando.
Existem muitas formas de amar. Há amores que são breves como as borboletas. Melhor trancado, sob controle, casulo, ou voando deslumbrado à caminho da morte?

“Quando o mar / Quando o mar tem mais segredo / Não é quando ele se agita / Nem é quando é tempestade / Nem é quando é ventania / Quando o mar tem mais segredo / É quando é calmaria // Quando o amor / Quando o amor tem mais perigo / Não é quando ele se arrisca / Nem é quando ele se ausenta / Nem quando eu me desespero / Quando o amor tem mais perigo / É quando ele é sincero.”¹

“Mas tudo tem um fim, / e logo, soçobrando pelo peso das encharcadas vestes, / cessou de cantar, e tornou-se cadáver / levado pela correnteza.”²

Mas talvez haja mais beleza no que eu digo do que no que eu sinto. Talvez.

1. Marília Barbosa, "Amor, amor", na trilha da novela O grito de Jorge Andrade, Som Livre, 1975. Ou Maria Bethânia em Pássaro proibido, Philips, 1976.
2. William Shakespeare. Hamlet. Tradução de D. Luís I, Rei de Portugal. Textos da exposição “Onde a água encontra a terra”, no CCBB.

O que podemos ser

Meu irmão jogou o chinelo, acertou meu rosto. Depois se defendeu e relutou em se desculpar. Depois pediu desculpas sinceramente. Depois chorei. Meu irmão tem atitudes absolutamente infantis. Aliás, os dois. Aliás, nós três. Sei que não é culpa dele, mas a responsabilidade é dele também, há a opção de lutar contra. Mas cada um sabe da força que tem. Sempre fomos infantilizados e super-protegidos. Trancados numa casa que ficava numa rua onde todos eram livres. Aprendemos que a liberdade é uma coisa feia.não dialogamos, não se deve responder aos pais.
Me agarrei ao freezer, passei a mão no peito de baixo para cima e consegui me tirar algumas lágrimas.
As dificuldades que tenho nos relacionamentos, nunca sei como agir. A batalha que é a vida social – falo de coisas simples, como sentar num bar e conversar, sair pra dançar. Só eu sei o esforço que faço para dizer cada palavra, para me mover, para parecer divertido. Posso me considerar forte, porque as pessoas têm gostado de mim – eu acho – apesar do medo que tenho delas. Tímido, simpático, bicha o ó, seco, doce, poético, poema, corpo, olhos, introspectivo, engraçadinho – será que pensam no que me trouxe até aqui? Será que alguém tenta considerar, imaginar?
Luciano gasta todo dinheiro do seu salário, às vezes pede emprestado pra mim, que não tenho salário. Não sai com amigos, não compra roupas, compra muitos cds de jogos. Joga muito vídeo game. Muito. Muito. Isso poderia ser bom se ele não tivesse gasto tanto dinheiro e tempo jogando na rua. Luciano não é filho da minha mãe, a mãe dele não o procura, ficou anos sem dar notícia. Luciano chegou aqui com sete anos, sem estudo, assustado, e muita gente riu dele. Uma coisa que eu acho bonita é ele ter escolhido o próprio nome. Antes de chegar ao Rio, antes de ser registrado, ele era Humberto. Pôde escolher se chamar Luciano. Ele achava um nome bonito. Ainda é.
Thiago, após se desculpar, saiu pra igreja. Ele vai ser padre. Ele é catequista e organiza muitas coisa nas paróquias, é famoso por lá. Nunca teve muitos amigos, acho que nunca beijou na boca, não conversamos sobre sexo, ele não gosta. Meu irmãozinho tem 16 anos. Dá gritos, se comporta como criança. Não gosta de muitas coisas. Penso se ele não gosta das coisas por escolha, ou por falta de escolha... A gente é o que quer ou o que pode ser?

Minha laje era uma cidade.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Qualquer coisa

Eu tinha muito medo de dizer. É ainda com com muito medo que eu digo. Esse medo todo do qual a gente falou, assumir esse medo só me deixou com mais medo. Medo de tomar qualquer atitude, de dizer qualquer coisa, como se eu estivesse segurando uma bola ensaboada, como se estivesse andando numa esteira rolante. Deixei que as coisas andassem sozinhas - elas não andaram, só me mostraram - mais uma vez - meu rosto. Me vi. Não agüento mais me encontar [me perde me perde por favor]. Os fatos são estáticos. Estão aí. Eu que faça com eles o que bem entender.
Se eu ficar mudo vou me tornar indiferente.
Se eu falar vou me tornar apaixonado.
Não queria parecer. Sou apenas eu, Lucas, estou com saudade do seu sotaque do seu peso sua língua na minha boca e na minha barriga
seus olhos úmidos e tudo mais. Não dê tempo e vazio pra eu sonhar, porque eu sonho fácil fácil. Estou sempre roxo, me diga se prefere vermelho ou azul. Quando a gente se encontrar de novo não vou saber como agir.
Ah, não estou cobrando nada, notando nada, nada. Só tô tentando dizer qualquer coisa. É uma forma confusa de dizer que penso em você.

sábado, 26 de julho de 2008

Rascunhos antigos

Tenho arrumado minhas coisas, meus papéis; acabei de constatar que joguei fora um texto do qual gosto (gostava) muito. Restou sua versão inicial, menos detalhada e mais cafona, que vou colacar aqui. Também há uns versos que eu pretendia que virassem música debochada, um rascunho. O primeiro texto havia sido escrito para a oficina Improviso e investigação, uma cena onde eu o usaria combiando a textos de Fernando Pessoa e Neruda.

Primeiro texto

Eu me lembro de algumas coisas. Lembro da casa que construí naquele quarteirão escuro, das avenidas iluminadas que nos cercavam. Lembro que éramos felizes, acordávamos banhados pelo sol, um sol que acorda mas não levanta. Apenas boceja. Lembro do dia em que se falou de amor. A porta se abriu. E a luz entrou, entrou no meu ouvido, na minha boca, cortou minha pele, correu pelas minhas veias. Os feixes de luz se cruzavam formando luminosas avenidas. Eu corri, corri para os cantos escuros. Ele, ele pegou sua boina e foi embora na luz.

Segundo texto

Pequena, menininha
Pelo Centro, tão sozinha
Procurando seu amor
Se fingindo de boazinha
De inocente faz a linha
Ensaiado e penetrante seu olhar no vagão do metrô

Fofa, delicinha, miudeza,
Certeza: cê vai se dar mal
Ai de quem moldar a estátua em torno de si
A casa em volta do quintal

Ela caça uma paixão que ocupe seus vazios
Amor com ar de derradeiro
Seja falso ou verdadeiro
Alguém que lhe sorria e a acaricie todo dia
Já que ela não sorri
Na frente do espelho.

Coisas marcantes nº 3

Há um tempo atrás, minha prima Aline, de cinco anos, me disse:

"Você é pequeno, né, Lucas?
Quando você crescer você vai continuar pequeno.
Quando você crescer você não vai poder neeeeem namorar."

E disse isso sem nem conhecer a Farme de Amoedo, a espertinha! Aline sabe das coisas...

Coisas marcantes nº 2

Esses dias me mandaram essa foto da oitava série. Isso me marcou.

Cada um tomou um caminho: mães, atendentes, estagiários, bandidos, universitários, professores... Não posso dizer: nesse tempo eu era feliz, porque nesse tempo eu não era, simplesmente isso: não era. Mesmo assim a atmosfera era a de uma alegria, talvez forçada. É um trem de doido mesmo. Hoje eu abraçaria a todos. Não sei se me entenderiam. Aquele pátio úmido, escorregadio, as salas compridas. A gente tinha muita vergonha de dizer as coisas.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Coisas marcantes

1 - Comprei um filme de Bergman chamado Através de um espelho. Assisti. É protagonizado por Harriet Andersson. Sua personagem sofre de distúrbios mentais. Sua crise de ausência é interrompida pela visão de Deus em forma de aranha. Seu susto a leva a relizar os seguintes movimentos: encosta-se na parede ergue uma perna e apóia o pé na parede, ergue a outra perna e apóia o outro pé na parede; é detida pelo marido, desvencilha-se do corpo dele empurrando-o e deixando-se escorregar; dá um giro; encontra outra perede, que a repele para outra parede. Isso me marcou.

2 - Hoje dei aula com Andrea para os participantes do ENECOM, na UFF. Estava nervoso, afinal eram pessoas da minha idade, estudantes do país inteiro. Umas 25 pessoas fizaeram a oficina e gostaram, eu e Andrea também gostamos. Elogiaram nosso método. O clima estava bom, eles estavam soltos e abriram espaço para discussões e críricas, eram felizes, tinham sotaques diferentes, tiraram fotos. Eu e Andrea saímos de lá meio bestas. Eu não me sentia capaz de dar aula. Até hoje não me sinto. Mas fui capaz dessa vez e fui capaz outras vezes. Isso me marcou.

3 - Fui pra Niterói da barca e voltei de ônibus. A barca não me dá medo. Sei que se ela afundar, terei tempo para pegar um colete, pualr na água com certa tranqüilidade e frieza. Mas se o ônibus 100 cair da ponte é outra história. O 100 vem beirando a ponte. Vim o caminho todo pensando: se ele cair, seu peso, ele próprio vai me arrastar por fundo, eu tenho medo do fundo. Isso me marcou.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Pois é...

APAGUEI A POSTAGEM ORIGINAL E SOBROU ISSO:

Hoje comprarei um camiseta branca como minha angústia.

ACRESCENTO O SEGUINTE:

Mas Amanda vai fazer uma pintura sobre minha angústia. Vai ser bom.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Significado da palavra Lucas

Nome: LUCAS

Significado: (latim) Natural de Lucânia, terra da luz.

Primeira Letra: L

Significado: Essa coisa de grupo definitivamente não faz sua cabeça. Seu negócio é um de cada vez e, quando sai com um amigo ou um (a) paquera, não quer mais ninguém por perto. Nessas horas você fica totalmente à vontade, e, até tira de letra qualquer desentendimento que possa surgir. Agora, se há uma coisa que deixa você nervoso (a) é ter que tomar uma decisão. Ufa, como é difícil, não? Por isso, às vezes, você parecia teimosa (o). Ou preguiçosa (o) e desligada (o). Mas é tudo fuga.

(http://www.vlmaria.com.br/signos/nomes/)

Lucas: Do latim "luminoso"

(http://www.portalbrasil.net/nomes/l.htm)

Lucas: Significa o que veio de Lucânia e indica uma pessoa que odeia a rotina e não tem a menor dificuldade em fazer da 'sua vida uma grande aventura. Paralelamente, sua sede de conhecimentos o ajuda a se dar bem em qualquer atividade.

(http://www.significadodosnomes.com/l2.php)

Às vezes coincide com o que sou, às vezes é exatamente ao contrário. Achei interessante e bonitinho.

sábado, 19 de julho de 2008

RETICENCIAS . (O não ter o que dizer é uma forma de silenciar...)

Lucas- Você não sabe o que é...levantar e depois esquecer onde ia. (ri) Você não sabe onde. (grave) Eu sei.
Rosana- Meu filho, você está alterado, calma.
Lucas- ...
Rosana-Quem é você agora? hoje? amanhã?
Lucas - ...
Rosana - A paixão é diferente de liberdade
Busca de ilusão (amor)
Lucas - ... (uma lágrima cai de seu olho esquerdo)
Rosana - Desculpa meu filho!!!!!

Permitiria, é claro... (um scrap para Rosana)

Permitiria, é claro. Você acha que não senti vontade? É que não tava a fim de sair hoje mesmo, posso conversar contigo pela internet mas não é a mesma coisa. Você tinha que ver meus olhos hoje, meu rosto, minahs mãos. Tinha que ver oq eu vi no espelho quando desisti de sair. Isso. Hoje me senti como um punhado de linhas vagas, como se pudesse quebrar ao primeiro toque. Foi como se meus dedos tivessem ficado longos e eu os sentisse realmente, não como dedos, mas como partes de mim. Ando meio estagnado, meus pés quase não saem do chão. Também não posso te sufocar com a minha dor.
"Só sei pensar pensar pensar pensar pensar... até chegar alguém"
Ontem na festa tocou "Qui nem jiló".
Chegou um postal de New York da Tatiane.
Enquanto amanhecia eu estava excessivamente comigo, demasiadamente consciente - fisicamente consciente. Não me teorizei. Estava existindo.

Ser

Respiração e mar
Artérias, veias, rios
Raízes e galhos
Cavernas e vaginas
Arranha-céus e pênis
Árvores e brócolis
.
.
.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Imagine

Imagine um lugar onde as pessoas só conversassem indiretamente, por textos postados num blog.
Imagine que lugar seria de silêncio.
De indiscrições. De olhares.
Ninguém reagiria. Só existiriam ações, muito bem pensadas antes de apertar o botão "nova postagem".
Todo alcançariam a mais alta sinceridade silenciosa e nada seria realmente dito, com olho, com boca. Tudo estaria no debaixo do tapete. No lugar que é difícil tocar.
(depois termino de escrever, cansei..
mas o assunto nao se esgotou.)

Amanda Doria

terça-feira, 8 de julho de 2008

"...a tua mão no pescoço, as tuas costas macias..."

E, novamente, não sabemos o que fazer depois. Sem fazer promessas, nos dissecamos. Havia uma ribalta sem luz para nós. Senti a sua boca no meu peito, seu sofrimento no sorriso. Aí, depois, vêm o amanhecer, as reticências, as palavras, os ois, os números. Não sei o que querer. Queira você. Queira por mim. Se você quiser...

sábado, 5 de julho de 2008

Primeiro o brilho nos palcos, depois o brilho nos olhos...

Tendo dito isso, Rosana me respondeu:

- Você vive tantas coisas ao mesmo tempo, que nem sente mais, né?
Só a sua matéria que sente.