Sua voz, Seu tom, seu tempo, as linhas que traçava com seus gestos, os pontos que seu olhar definiam.Tudo se desajustava com os momentos, os despropiciava. De tal modo que se, de repente, se assumisse com força, se isolaria. Se sua força brotasse e não precisasse se esforçar, se, por acaso, como numa explosão, ele se conectasse todo consigo mesmo, suas pernas andariam para trás, seus antebraços lhe cobririam o rosto, seus dedos acariciariam o próprio peito, as costuras das camisetas, a cerne finíssima do pescoço. Seria feliz. Uma felicidade epifânica que ninguém veria. E como ninguém entenderia, e como os olhos estão voltados irremediavelmente para fora, veria as paisagens se afastando, as pessoas transitando indiferentes, seu isolamento espelhado. E veria que não era feliz. Mesmo o sendo. E desistiria de ser. E lutaria. E viveria. Simples e plenamente. Quem sabe esbarrasse com instantes de vida. Mas epifania - palavra que lhe remetia a órgão agudíssimo - só o fazia ouvir bumbos pesados com eco e o som longínquo demais de um riacho lento. Se pelos menos escutasse as madeiras estalando no fogo...
Gostava dos palcos, dizia-se ator. Ser ator o retirava camadas finas de pele, lasquinhas de carne - seus pedaços iam ficando no palco, e ele não sabia onde tinham ido parar, pois não os reconhecia espalhados nas tábuas. Sonhava fazer algo que pudesse lhe vestir, assim como um terno bonito, algo que lhe cumulasse para nunca se despedaçar demais nem ficar muito maciço. Dentro do oco, afinal, algo ecoava.
Numa tarde, esperou durante horas por pessoas que não apareceram. Resolveu ouvir Chopin e escrever. Percebeu que as palavras não davam conta de seu desespero vago. Que bom. Ninguém estava disposto a ler as tristezas de ninguém.
Gostava dos palcos, dizia-se ator. Ser ator o retirava camadas finas de pele, lasquinhas de carne - seus pedaços iam ficando no palco, e ele não sabia onde tinham ido parar, pois não os reconhecia espalhados nas tábuas. Sonhava fazer algo que pudesse lhe vestir, assim como um terno bonito, algo que lhe cumulasse para nunca se despedaçar demais nem ficar muito maciço. Dentro do oco, afinal, algo ecoava.
Numa tarde, esperou durante horas por pessoas que não apareceram. Resolveu ouvir Chopin e escrever. Percebeu que as palavras não davam conta de seu desespero vago. Que bom. Ninguém estava disposto a ler as tristezas de ninguém.