terça-feira, 9 de junho de 2009

Acidente na Avenida Beira-Mar

Tendo passado um domingo agradável, resolveu que a segunda seria sem mais preocupações. Foi resolvendo, melhor dizendo, durante o próprio dia, deixando-se entregar aos pequenos imprevistos – atrasos, mudanças na alimentação... Teria que passar na faculdade antes do ensaio, mas passou depois. E, tendo chegado na faculdade, poderia ter feito o que deveria ser feito e ter-se ido embora. Mas Lucas gostava daquela gente e foi ficando. Até descobrir que era aniversário da Renata. E que sairiam para comer pizza depois.


E então, depois de um domingo de paz, no qual comprou uma manta verde que muito significava (questões estéticas, questões de sangue, questões) e de apresentar alguns amigos à madrinha e de ter revisto um antigo amor (o que o deixou um tanto inquieto), Lucas se entregou a uma segunda-feira que não sabia se era dele ou dos outros. Mas gostava dos outros. Riu muito. Há muito tempo não ria assim. Fabíola lhe disse “você mudou”, o que o deixou bastante feliz. “O que faço aqui?”, se perguntava, quando se dava conta de que era na verdade pessoa triste e cansada. Estava buscando, talvez.


Risos, pizzas, lembranças. Muitas lembranças. Depois de um balanço de suas vidas, estavam todos prontos para morrer plenamente. É doce morrer no mar. Deve ser amargo morrer de desastre. O namorado de Tamires chamou Lucas de Luquinhas, uma intimidade feliz. Aliás, os garçons já eram chamados por seus nomes, à essa altura. Canções de todo tipo foram cantadas.


Lucas, Renata e Eduardo saíram plenos e tranqüilos. Dois ônibus para a Central passaram, mas eles não pegaram. Veio o 176. Foi este que pegaram. Mudaram de lugar. Lucas falou sobre sua mudança. Renata lembrou que nasceras às onze e eram quase onze.


Avenida Beira Mar. Um ônibus atinge o ônibus dos três. E ele vinha na direção dos três, mas, por algum motivo, acho que bateu mesmo atrás. É, foi atrás. A velocidade, enfim. A gente acha que vai bater na gente. Mas as coisas não param, eleas continuam e já que o ônibus dos 3 continuou a se mover por menos de um milésimo, foi acertado atrás e não no meio. De lado. Ele ameaçou virar, continuou, ameaçou virar, continuou. Batia nas árvores, nas calçadas. Batia. Renata abaixada, Eduardo a segurava. Creio que Lucas se levantou, num salto, e parou em outro banco.


Renata estava muito surpresa. Estava viva. Estar viva é raro.

Eduardo a protegia, com uma fé segura, de quem fecha os olhos e sorri. Ele estava sério (mas a alma dele está sempre sorrindo).

Lucas – posso falar mais deste – com um ar de segurança, deve ter imaginado que morrer é prático pois, depois de se segurar e de ter pensado exatamente em se segurar – como se estivesse certo de que seus movimentos bem medidos não o deixariam morrer – depois disto, procurou seus chinelos. Só depois, então, quando Renata atentou para as pessoas jogadas fora do veículo, e Lucas observou a estrutura de metal e de sei lá o quê – fibra, meu Deus, fibra quebrada, tudo feio, triste, não quero morrer! – pensou no quanto estava vivo. (Já disse que não quero morrer?)


Abraçaram-se os três, atordoados. Deram telefonemas. Eduardo saiu para prestar ajuda, porque é muito bom o Eduardo, e sua bondade é organizada, ele se dividia entre seus amigos, entre a observação das vítimas, além de exercer o papel de cidadão ofendido e ferido fisicamente, seu papel de vítima. E, tendo certeza de sua própria bondade, sem nenhuma vaidade, se deu o direito de tirar fotos (para registrar que estava vivo, para acusar alguém, para não esquecer que a dor existe e pode atravessar nosso caminho...?).

Renata e Lucas não são tão organizados espiritualmente e permaneceram desnorteados. E agora, o que faremos? Voltamos para casa como se nada tivesse acontecido? Então é isso? Depois de sentir o peso da morte, tão perto, atravessamos a rua normalmente e normalmente voltamos para casa?


Ninguém morreu. Pessoas foram lançadas, lembranças foram lançadas. Talvez este dia não tenha existido. É, talvez eu esteja inventando. Melhor inventar agora, sim. Não quero ter pesadelos. Nem quero morrer.


É fácil morrer. Vem uma máquina, grande, com rodas e te esmaga, de repente. Eles fabricaram máquinas pequenas agora, vocês sabem. Mas esqueceram das grandes.


(Nunca se deve viajar nos bancos de trás. Eles devem estar sempre vazios em sinal de...)


(Foi quem que passou o sinal? Foi o do ônibus de viagem. Não, foi o motorista de vocês. Se me chamarem pra depor vou dizer que não sei, não sei de nada. Aquela senhora não consegue se mexer.)


Ah, quanto aos três – Eduardo, Renata e Lucas – acho que eles se gostam muito. Talvez tenham percebido mais o tamanho do gostar. Perceberam também o tamanho da carne. O tamanho de si mesmos. Enfim, três carnes que se gostam. É isso.

Um comentário:

Tamires Nascimento disse...

Comunico oficialmente que esses três estão proibidos de morrer!