segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Pra eu parar de me doer
"Mais que a dor do amor
Viver a dor me doeu
Eu quero mesmo é ser feliz
Amar, amor
Quem não semear
Não vai colher
Ai de quem é um
E nunca será dois
Por não saber
Quem irá me valer?
São pessoas, é a caminhada
Quem irá me valer?
São meus sonhos no pó da estrada
Quem irá me valer?
É o sorriso que trago comigo
Quem irá me valer?
É segredo de fazer amigo"
domingo, 28 de junho de 2009
Gilberto Gil
O COMPOSITOR ME DISSE
O compositor me disse que eu cantasse distraidamente essa canção
Que eu cantasse como se o vento soprasse pela boca, vindo do pulmão
E que eu ficasse ao lado pra escutar o vento jogando as palavras pelo ar
O compositor me disse que eu cantasse ligada no vento
Sem ligar pras coisas que eu quis dizer
Que eu não pensasse em mim nem
Que
E que eu parasse aqui
Assim
COPO VAZIO
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar
É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar
É sempre bom lembrar
Guardar de cor
Que o ar vazio de um rosto sombrio
Está cheio de dor
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor
Que a dor ocupa a metade da verdade
A verdadeira natureza interior
Uma metade cheia, uma metade vazia
Uma metade tristeza, uma metade alegria
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar
DOS PÉS À CABEÇA
Eu estou onde está meu corpo
Meu corpo, onde estão os meus pés
Meus pés, onde está o chão
Ou então
Onde a cabeça
Com seu pensar em vão
Eu estou onde tudo esteja
Ou seja
Onde quer que esteja em mim
O céu, o chão, o não, o sim
A vontade de Deus
O meu corpo todo, eu acho
Vale quanto pesa e sente
Como pensa e é imenso
Como deve ser o vôo
Da terra pra lua
E a noite da lua
E a imensa viagem do dia do sol
E a continuação da imensidão
Pelo corredor da enfermaria
Daquele lugar aonde eu ia
Visitar meu namorado internado
Dado por louco
Por pouco, pouco, muito pouco
Pouco mesmo
BALADA DO LADO SEM LUZ
O mundo da sombra, caverna escondida
Onde a luz da vida foi quase apagada
O mundo da sombra, região do escuro
Do coração duro, da alma abalada, abalada
Hoje eu canto a balada do lado sem luz
Subterrâneos gelados do eterno esperar
Pelo amor, pelo pão, pela libertação
Pela paz, pelo ar, pelo mar
Navegar, descobrir outro dia, outro sol
Hoje eu canto a balada do lado sem luz
A quem não foi permitido viver feliz e cantar
Como eu
Ouça aquele que vive do lado sem luz
O meu canto é a confirmação da promessa que diz
Que haverá esperança enquanto houver
Um canto mais feliz
Como eu gosto de cantar
Como eu prefiro cantar
Como eu costumo cantar
Como eu gosto de cantar
Quando não tão a balada, a balada, a bala
AMARRA O TEU ARADO A UMA ESTRELA
Se os frutos produzidos pela terra
Ainda não são
Tão doces e polpudos quanto as peras
Da tua ilusão
Amarra o teu arado a uma estrela
E os tempos darão
Safras e safras de sonhos
Quilos e quilos de amor
Noutros planetas risonhos
Outras espécies de dor
Se os campos cultivados neste mundo
São duros demais
E os solos assolados pela guerra
Não produzem a paz
Amarra o teu arado a uma estrela
E aí tu serás
O lavrador louco dos astros
O camponês solto nos céus
E quanto mais longe da terra
Tanto mais longe de Deus
ORIENTE
Se oriente, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul
Se oriente, rapaz
Pela constatação de que a aranha
Vive do que tece
Vê se não se esquece
Pela simples razão de que tudo merece
Consideração
Considere, rapaz
A possibilidade de ir pro Japão
Num cargueiro do Lloyd lavando o porão
Pela curiosidade de ver
Onde o sol se esconde
Vê se compreende
Pela simples razão de que tudo depende
De determinação
Determine, rapaz
Onde vai ser seu curso de pós-graduação
Se oriente, rapaz
Pela rotação da Terra em torno do Sol
Sorridente, rapaz
Pela continuidade do sonho de Adão
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Encouraçado
"Encouraçado nos meus agasalhos
Nesta vaguíssima avenida
Nesta lentíssima espreguiçadeira
No seio desta tarde confortável
Distante fugitivo
Da primitiva aldeia dos macacos
Onde cresci, onde me debrucei
E de onde fui expulso
Por raiva e desafio
Ao berço e à dinastia
Eu, bandoleiro
Eu, o proscrito
Eu, o fora da lei
E o que fazer
Eu quero, eu quero, eu quero
Encouraçado nos meus agasalhos
Nesta vaguíssima avenida
Nesta lentíssima espreguiçadeira
No seio desta tarde confortável
Exalo com voz cava
Os mais terríveis urros, vaticínios
A 100 mil anos luz
Da Palestina, da China e da Abissínia
Por raiva e desafio
Ao berço e à dinastia
Eu, bandoleiro
Eu, o proscrito
Eu, o fora da lei
E o que fazer
Eu quero, eu quero, eu quero
Encouraçado nos meus agasalhos
Nesta vaguíssima avenida
Nesta lentíssima espreguiçadeira
No seio desta tarde confortável
Contemplo a maravilha
A doce madrugada de Sodoma
Que os índios vão tomar à mão armada
Aos uivos e vagidos
Por raiva e desafio
Ao berço e à dinastia
Eu, bandoleiro
Eu, o proscrito
Eu, o fora da lei
E o que fazer
Eu quero, eu quero, eu quero, eu quero, eu quero, eeeeu... eeeeeu...."
domingo, 12 de abril de 2009
Dalva de Oliveira na veia!
Aquele amor que pôs em mim tanta amargura.
E recordei, estando só, a ternura de outrora.
Tempo feliz
que se resume em lembrancas agora.
Alguém te amou e hão de te amar
como eu te amei
Há corações que te darão o que eu te dei.
Tu passas pela rua e a vida continua
E em mim também esta saudade sempre tua."
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Velho arvoredo
"Eu te esqueci muito cedo
Pelo tempo que passou
Tal como um velho arvoredo
Que o vento não derrubou
Tronco mudado em rochedo
Pedra transformada em flor
E eu fui ficando sozinho no pó do caminho
Me desenganando, sofrendo e chorando
E mantendo em segredo
Essa minha ilusão
Que me escapou de entre os dedos
Pra não sei que outras mãos
E eu me tornei o arremedo
De tudo aquilo que eu não sou
Mas eu jamais retrocedo
O que passou passou
Já superei, mas só eu sei
O mesmo jamais eu serei
Feito a madeira o machado inclinando
Eu por fora estou cicatrizando
E por dentro sangrando, afastado do medo
Mas sozinho, tal como o velho arvoredo
Que não serve ao tempo nem ao lenhador
E o vento abandonou"
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
O marinheiro
Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixão com uma donzela, de branco. Quatro tochas aos cantos. À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar.
Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela.
É noite e há como que um resto vago de luar.
PRIMEIRA VELADORA – Ainda não deu hora nenhuma.
SEGUNDA – Não se podia ouvir. Não há relógio aqui perto. Dentro em pouco deve ser dia.
TERCEIRA – Não: o horizonte é negro.
PRIMEIRA – Não desejais, minha irmã, que nos entretenhamos contando o que fomos? É belo e é sempre falso...
SEGUNDA – Não, não falemos disso. De resto, fomos nós alguma cousa?
PRIMEIRA – Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, sempre é belo falar, do passado... As horas têm caído e nós temos guardado silêncio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. Às vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu não sei por que é que isso se dá. Mas sabemos nós, minhas irmãs, por que se dá qualquer cousa?
(uma pausa)
A MESMA – Falar no passado – isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena...
SEGUNDA – Falemos, se quiserdes, de um passado que não tivéssemos tido.
TERCEIRA – Não. Talvez o tivéssemos tido...
PRIMEIRA – Não dizeis senão palavras. É tão triste falar! É um modo tão falso de nos esquecermos!... Se passeássemos?...
TERCEIRA – Onde?
PRIMEIRA – Aqui, de um lado para outro. Às vezes isso vai buscar sonhos.
TERCEIRA – De que?
PRIMEIRA – Não sei. Por que o havia eu de saber?
(uma pausa)
SEGUNDA – Todo este país é muito triste... Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse.
PRIMEIRA – Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!... O mar de outras terras é belo?
SEGUNDA – Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...
(uma pausa)
(...)
SEGUNDA – Contemos contos umas as outras... Eu não sei contos nenhuns, mas isso não faz mal... Só viver é que faz mal... Não rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes... Não, não vos levanteis. Isso seria um gesto, e cada gesto interrompe um sonho... Neste momento eu não tinha sonho nenhum, mas é-me suave pensar que o podia estar tendo... Mas o passado – por que não falamos nós dele?
PRIMEIRA (...) – O silencio começa a tomar corpo, começa a ser cousa... Sinto-o envolver-me como uma névoa... Ah! falai, falai!...
SEGUNDA – Para que?... Fito-vos a ambas e não vos vejo logo... Parece-me que entre nós se aumentaram abismos... Tenho que cansar a idéia de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos... Este ar quente é frio por dentro, naquela parte em que toca a alma... Eu devia agora sentir mãos impossíveis passarem-me pelos cabelos – é o gesto com que falam das sereias... (Cruza as mãos sobre os joelhos. Pausa). Ainda há pouco, quando eu não pensava em nada, estava pensando no meu passado.
PRIMEIRA – Eu também devia ter estado a pensar no meu...
TERCEIRA – Eu já nem sabia em que pensava... No passado dos outros talvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu... Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho... Por que é que correria, e por que é que não correria mais longe, ou mais perto?... Há alguma razão para qualquer coisa ser o que é? Há para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?
SEGUNDA – As mãos não são verdadeiras nem reais... São mistérios que habitam na nossa vida... às vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus... (...)
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
...quem não presta sou eu
DOMINGO, ANTES DE DORMIR
“Aos domingos, a família ia ao cais do porto espiar os navios. Debruçavam-se na murada, e se o pai vivesse talvez ainda tivesse diante dos olhos a água oleosa, de tal modo ele fixava a água oleosa. As filhas se inquietavam obscuramente, chamavam-no para ver coisa melhor: olhe os navios, papai!, ensinavam-lhe elas inquietas. Quando escurecia, a cidade iluminada se tornava uma grande metrópole com banquinhos altos e giratórios em cada bar. A filha menor quis se sentar num dos bancos, o pai achou graça. E isso era alegre. Ela então fez mais graça e isto já não era tão alegre. Para beber, escolheu uma coisa que não fosse cara, se bem que o banco giratório encarecesse tudo. A família, de pé, esperava. A tímida e voraz curiosidade pela alegria. Foi quando conheceu ovomaltine de bar, nunca antes tal grosso luxo em copo alto, mais alteado pela espuma, o banco alto e incerto, the top of the world. Todos esperando. Lutou desde o princípio contra o enjôo mas foi até o fim, a responsabilidade perplexa da escolha infeliz, forçando-se a gostar do que deve ser gostado, desde então misturando, à mínima excelência de seu caráter, uma indecisão de coelho. Também a desconfiança assustada de que ovomaltine é bom, quem não presta sou eu. Mentiu que era ótimo porque de pé eles assistiam à experiência da felicidade cara: dela dependia que eles acreditassem ou não num mundo melhor? Mas tudo isso era rodeado pelo pai, e ela estava bem dentro dessa pequena terra na qual caminhar de mão dada era a família. De volta o pai disse: mesmo sem termos feito nada, gastamos tanto. Antes de adormecer, na cama, no escuro. Pela janela, no muro branco: a sombra gigantesca e flutuante dos ramos, como se de uma árvore enorme, que na verdade não existia no pátio, só existia um magro arbusto; ou era sombra da lua. Domingo foi sempre aquela noite imensa que gerou todos os outros domingos e gerou navios cargueiros e gerou água oleosa e gerou leite com espuma e gerou a lua e gerou a sombra gigantesca de uma árvore pequena.”
Clarice Lispector, Para não esquecer. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Julio
Ai a vida...
dói em mim
mesmo não tendo grandes problemas
mas ela já é.
...dadá é bem fake.
Não sei. Acho que não. Mas não sei. De repente sim."
sábado, 8 de novembro de 2008
Lupicinio!
Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves
Quem há de dizer
que quem você esta vendo
Naquela mesa bebendo
É o meu querido amor
Repare bem que toda vez
que ela fala
ilumina mais a sala
Do que a luz do refletor
O cabaré se inflama
Quando ela dança
E com a mesma esperança
Todos lhe põem o olhar
E eu, o dono,
Aqui no meu abandono
Espero louco de sono
O cabaré terminar
"Rapaz! Leva esta mulher contigo"
Disse uma vez um amigo
Quando nos viu conversar
"Vocês se amam
E o amor deve ser sagrado
O resto deixa de lado
VaI construir o teu lar"
Palavra! Quase aceitei o conselho
O mundo, este grande espelho
Que me faz pensar assim
Ela nasceu com o destino da lua
Pra todos que andam na rua
Não vai viver só pra mim
