sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Diário

Exercício de Dramaturgia – limites e cruzamentos entre ficcional e autobiográfico


15/10/09 na Praia Vermelha

À noite pensei em algumas pessoas. Falta de esperança quebra libido. Quando acordei não consegui agir. Ouvi rádio, dessa vez não pus nenhum disco da Elis, mas pus gravações minhas. A música que eu mesmo fiz consegui ouvir, as outras não: o rádio não leu o CD. Às vezes gosto da minha voz, sou meu próprio fã, ser seu próprio fã é o que leva à tristeza, ainda mais quando se é o único. Pois quem diz que me adora não me conhece, ainda não sou alguma coisa. E já não acredito mais no ser, acredito no sendo. “A tristeza é uma forma de egoísmo”, já dizia o Arnaldo, “eu vou te dar eu vou te dar eu vou te dar”. Quis pegar sol, mas ventou e nublou. Agora sinto alguns pingos. Exatamente agora começou a pingar: pequenos milagres acorrem enquanto penso na vida, nunca enquanto eu vivo.

Um rapaz muito bonito me olhou. Hoje estou mostrando meus braços e tenho muito medo de que alguém diga que são feios.

Meu irmão, mais cedo, disse que minha mãe rezou o terço chorando ontem porque não rezei com eles. Eu estava no quarto e sabia que ela estava chorando.

Há homens na praia. Um grupo brinca no mar. Parecem ter tirado a sunga de um amigo. Eu não tive vontade de ver o sexo dele.

Há homens bonitos e quando os observo não sei se desejo o corpo deles, se desejo o corpo deles, ou se desejo o corpo deles, e não sei se tudo não seria a mesma coisa, afinal. Já falei da proximidade entre amor e inveja? Tenho medo de que nem todos sintam assim, e que eu não seja o único a confessar, mas o único a enlouquecer.


16/10/09 no ônibus

Amanhã é meu aniversário e vou comemorar com pessoas boas. Passei o dia pensando nisso. Ironicamente, nasceu algo estranho na minha nádega direita, na altura do ísquio: uma espinha, talvez um furúnculo. Eu, tão organizado e limpo e facilmente assimilável por mim mesmo me deparo agora com essa interferência desestabilizadora. Uma reação, enfim: serve para mostrar que estou vivo, que sou todo natureza. Se eu fizer sexo amanhã e observarem atentamente minha nudez, espero que entendam que é a vida que se manifesta na minha nádega direita.

Está vendo, querido diário, como não consigo relatar o que houve, mas somente o que pode ser?


21/10/09 na aula de Dramaturgia

Acabei de perceber que não percebi que cresci. Não consigo sentir. Estava buscando estar e me deparei com essa pedra que tenho de arrastar: o que eu sou. Tudo o que sou tenho que arrastar. Tenho que olhar para cima e sempre foi assim.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Taquipsiquia?

...e sempre temo. E me repelirias na frente de todos, isso é que doeria, porque eu mostraria minha dor involuntária, não a que quero mostrar e na qual trabalho dia-a-dia (à qual chamo arte). E me descobririam, enfim.