sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Circular

Sempre criei dores para... criar? Sempre inventei dores para criar. E das dores reais não pude fazer muita coisa. As que inventei também são reais, na verdade. Eu as inventei, elas existem. Mas têm coisas que não dependem de mim.
Perdi minha melhor amiga. Não sei se tudo estava realmente bem entre a gente. Ainda estou perdido e, apesar de dizer que estou bem, sei que não estou. E não é uma relação óbvia, não identifico minha tristeza. Só tenho quase certeza da raiz dela e estou ficando um pouco intransigente, seco, apressado, excessivamente expressivo.
Descobri há alguns minutos que meu primeiro namorado morreu. Uma pessoa que eu amei muito, e da qual tive muita raiva também, como se fossem duas pessoas. A morte quebra tudo, fica só uma dor, uma lembrança vaga (vaga mesmo, porque fazia muito tempo que eu não o via), e uma vontade de tocar no rosto dele.
Há pessoas que ressurgem. Que voltam de momentos muito parecidos. Como se tudo tivesse sido um sonho mesmo. Como se a Amanda tivesse sido um sonho maravilhoso e agora eu tivesse que tomar um café e recomeçar uma vida de merda. Tenho medo que as pessoas que voltam se deparem com alguém muito diferente, alguém que não vai sorrir à toa, que vai rir do que ninguém acha graça. Ontem me disseram que eu estou um pouco violento.
Hoje não posso dizer EU QUERO ser feliz. Hoje eu não sei o que dizer. Eu queria exibir minha dor, da maneira mais egoísta. Gritar meu choro. Um choro que mostrasse minha família vindo do sertão, minha educação repressora e superprotetora, meu medo, minha falta, meu peso, minha falta de apetite, a vida da Amanda, Claudio, Quintino, chuva, São Cristóvão, poeira, Catete, atravessar o jardim rapidamente, vergonha de mim..............................

domingo, 23 de agosto de 2009

As primeiras curvas

Não é o que, vindo de fora, não cabe em mim. É o que está dentro de mim e não cabe no mundo. O que sou obrigado a não aceitar porque não saio de mim, apenas: também me vejo de fora, também tenho dentro dos meus olhos os olhos de outros. Condenado, me atolo nessa matéria singular.

(Mas sei que estou no caminho. E já que acertei o caminho posso parar de falar de mim e começar a dizer quem sou. Para isso preciso falar de você. Quem sabe, assim, eu apareça – eu me apareça. E eu me descubra nas palavras, nestas palavras implicadas em algo que está fora. Talvez só assim eu me veja: no que vejo.)

Me disseram: Criança, você pode dizer de onde veio fazendo curvas. Tudo o que fiz foi fazer curvas de mim, e nada mais, como se eu pudesse existir independente. Mas dependo de ruas, de ônibus, de chão. Do chão duro. Da nossa lenta aproximação. Não disse, por exemplo, que durante o caminho, ainda sentia o cheiro da sua saliva. E o seu perfume também, mas não sei se era já uma lembrança. Não falei do meu medo, que sempre foi maior que a minha dor. Meu medo de causar dor, e não de senti-la. Porque sou fraco, e não frágil. Meu medo nunca foi o de me partir, mas o de ficar inacabado – ou de inacabar a você, que não tem nada a ver com isso. Juro. Você dorme comigo num chão duro e frio, me entra, encosta seus pelos e, no entendo, está aí, neste seu corpo, e eu estou cá comigo, com minha história, com meu pequeno corpo, que é um produto e ao mesmo tempo um documento. Como toda obra de arte. Quando escuto um disco de Elis, penso que não deveriam ouvir como um produto, apenas, mas também como documento. E quando me vejo no espelho, quando estou só com minha cama, penso que não deveria me ver apenas como documento, mas também como produto. Não sei se me faço entender. Espero que sim, porque não faz mais sentido nenhum e qualquer documento é produto, senão coitado dele, coitado, meu Deus. Meu Deus: tenha pena.

De novo esqueci de você. Antes de mais nada, quero dizer que estou com muito medo de me enganar com minhas palavras e te amar. Porque isso aconteceu, certa vez. Eu escrevi tanto sobre mim que me apaixonei por um eu que nem existe, um eu que pré-vive tudo por mim, e vive com certo prazer. Com prazer delicado e atento. Não me sobrou nada.

...durante o caminho ainda sentia o cheiro da sua saliva. Você não foi um objeto desesperado de prazer seco, nem foi o amor da minha vida vestido em uniforme colegial. Você foi o que tinha que acontecer. Calmo e belo. Franco. Você foi acontecendo. E eu também. Como se a qualquer momento eu pudesse parar tudo para acender um cigarro e tudo dependesse de força de decisão. Eu fui livre. Só não me libertei... de mim, não do que eu inventei, não da minha cena, mas do que não posso escapar. Porque muito antes de ser eu, eu existo.

domingo, 16 de agosto de 2009

Pra bom entendedor uma fatia basta

Eu só digo uma coisa: quem quiser exigir de bolo, que exija antes de ir pro forno. Depois de pronto - que o corte e o coma sem medo. Porque bolo pronto é como pedra. E quem exige de pedra tem medo de gozar.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Gota. Gota. Gota.

Estou sendo esvaziado. E, como quem volta da praia e sente, sentado no ônibus, o balanço das ondas, eu também sinto o línquido que já escorreu. É como uma sala branca, vazia, após uma exposição surrealista. É a lembrança de um som (o que é o mesmo que um silêncio espantoso, aliás, um silêncio espantado). É a dor num membro amputado. É dar-se conta, após uma perda brusca de memória, da coisa mais inútil que existe.
Tenho os olhos arregalados e balbucio qualquer coisa. Nada faz sentido. Se eu pergunto por que para cada cada coisa, sei que vou rir, mas que também vou chorar, pois em algum momento, no meio de todas as coisas posso encontrar o sentido de viver. Não sei porque sou, é bom que eu encontre o motivo de ser numa esquina. Sinto que procurar iria me interromper, desviar. Procurando por mim me perderia do meu curso, e quando me achasse seria o mesmo que descobrir uma traição de alguém que já partiu, o mesmo que encontrar uma enorme quantia de dinheiro numa moeda que não vale mais. Talvez quem escreva tenha se traído, se perdoado. Talvez não valha mais. Talvez eu esteja insistindo.
O que é real é que as coisas perderam seu impacto. Elas permanecem apenas importantes, necessárias. Mas o impacto é uma coisa que só o delicado pode causar, só o detalhe. E os detalhes já foram absorvidos pelas necessidades. Viver está bruto como comer sem vontade, como ter que comer um pedaço de carne para se alimentar, detestando aquele sabor. Alguma coisa tem que me impactar. Eu sei o que é, mas não vou dizer.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Primeira euforia íntima compartilhada

Eu estava certo de que aquele momento bastava. Aqueles beijos já estavam tão permeados pelas verdades que dissemos, que o que não houve após, tudo o que não foi estava repleto do momento. Como uma felicidade que se descobre pura e que, de tão pura, passa a ser a inicial, aquela primera euforia entre duas pessoas que irá guiar todos os encontros - sejam eles como esse nosso, que celebrou a alegria primeira simplesmente, ou instantes de embate e acusação, sempre em contraponto com ela, tendo-a como referência até para o exatamente oposto.
Numa sala que não é minha, diante de uma tv que não é minha, próximo a rotinas independentes, estava pleno como você e transbordaria com certeza. Me pergunto por que você não está aqui agora?, se eu me entregaria tão facilmente, pois já estou entregue à espera. Uma espera que é quase fé.
Outros olhos me falam sobre esse novo momento, no qual não me envolvo. Bom, você representa outra coisa. Outra coisa. Você está aqui. Está deslizando. Está escorregando nos meus olhos. Você me acena de longe.
O que digo é atravessado por outras vozes irresistíveis. Assim, nem tudo é exatamnte o que eu sinto nem o que eu me propunha a dizer. Mas tudo é verdadeiro, tudo é real, descobri agora.