terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Postagem banal de carnaval

"Suspeitei desde o princípio" mas me chicoteei todo por dentro. Não, não, não, não pode ser. Se liberte do egoísmo, da cobrança, não faça comparações, não meça, seja uma pessoa boa. Estou tentando, sempre me purifico. Às vezes vai uma parte de mim. Se eu mudar alguém vai reparar? Vou experimentar.
Hoje acordei com pensamentos sórdidos. E a inveja me corroendo. Por um lado. Agora por outro.
O que eu faria por dinheiro?

O tijolo recôndito

...não temo o sofrimento porque é carnal. E a minha carne quer os olhos, o tempo, os passos no corredor, os planos, a tristeza, o medo, a ameaça, os suicídios, as mutações. A carne quer o que não diz respeito à carne. Quer o que não se apalpa, o que não se sente, o que se pressente. É uma carne masoquista essa, e dela sou todo formado. Não renego. Já é impossível na essência. A carne busca na carne o que está além, o que está cravado, o que está através e exalando. Eu a obedeço, como cidadão que não pode atravessar prédios sem pensar na gota de suor que escorreu num tijolo.

Faz tempo

Se quando chego, já quero partir, para que me movo? Pra onde? Por quem?

Não quero que nada saia do lugar onde está, mas que tudo cresça e se multiplique.

Querida, quando eu tiver dinheiro vou morar com você. Sempre penso nisso.

Tudo tudo tudo nada nada nada.

Sonhar.


Miguel, filho da minha prima, tem quatro irmãos. Miguel era calado. Hoje está vermelho de sol e muito feliz e falante. Disse que gosta de sol: “eu gosto de sol, vocês não sabem não?” Vitória, sua irmã, gosta de ficar descascada. Vitória se desculpa muito e gosta de passeios. Outro dia me mandou um scrap que Gabriel (o mais velho) falou que sou gay e ela não acreditou. Me perguntou se era verdade. Gabriel é falante, agressivo e gosta de vinho, bebeu vinho do meu tio escondido; Vitória é vaidosa e gosta da gente, é um pouco assustada; Miguel é calado, dizem que tem problemas nos nervos, olhos grandes, sorri com modéstia; Daniel é o loiro, cabelos lisos, nariz sujo, está sempre babando, parece ser o mais amado pela mãe e sabe se fingir de morto; Ana Júlia é a bebê, sempre desconfiada, é a Meg.


Todos os que eu gostaria de ver realmente moram longe, não posso sair e marcar uma cerveja de sopetão. Quintino, Cordovil, Taquara, Nilópolis, São Cristóvão, Tijuca, Campos, Friburgo. Só Botafogo ali do lado. Mas somos todos iguais.

“As aparências enganam aos que gelam e aos que inflamam.”


Todo dia o mesmo grande esforço para sentir prazer. Foca-se nos sorrisos, cria-se um cigarro. Sigo.

Faróis no meio da noite. Numa velocidade não real. Uma velocidade de filme.


Já se perdeu o que eu estava quase encontrando. Quem?


Por que corredores você anda nessas tardes vazias? Essas tardes parecem trazer a lua. A lua mais cedo, e cheia, só por ironia.


A noite vazia e ondulante. Depois de se sentir só, percebeu que seus desejos eram caprichos. Caprichos de lua cheia, de verão. As pernas dissociadas da boca cerrada firmemente. Não havia força para ser sensual. A qualquer pré-sinuosidade, a resposta do profundo senso do ridículo. Cigarros e copos servem de coluna.

Saiu sem saudade. Sem nada que o prendesse.

O que lhe dava tanta fé? O tempo?

Abandonado, o corpo largado, sem tônus, esticado, os ombros abertos, mas os braços colados. Um boneco de Olinda.

Não vai ser em vão.

A necessidade era a de se sentir desejado nos meios. Desejado sexualmente.

Nos trilhos do metrô se fazia de menina inteligente. Tímida. Olhava com reserva, rápida. Outro dia foi olhada por dois de forma bem intensa. Estava linda ou muito feia. Sempre havia a possibilidade da feiúra. Apostava na inocência como atenuante para seu deslocamento, sua ignorância social.

Não adiantava. Ninguém tem mais tempo. Quem não sabe dançar que sai rápido da roda, que ela só dura até as seis. Depois todos retornam apagados.


Mas talvez nada tenha acontecido. Vai ser amanhã e pode dar tudo certo.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Agora de qualquer maneira

Da janela via o bloco passar.
Por quê?, se perguntava, por quê...? Não entendia o impedimento, essa tal força que o aplacava.
Não há nada mais de que se orgulhar. O tempo muda as coisas, ao contrário do que elas eram. Elas são sempre duas, várias coisas. Paradas, coitadas, mudas diante do tempo, à mercê. Resta o medo próprio mais a desconfiança alheia. Essa soma resulta em esperar um ônibus que - se sabe! - não vai passar, somente pelo prazer de fumar um mentolado e pela esperança de que sua dor seja reparada.
...
Reparada.
Reparar.

Velho arvoredo

(Paulo Cesar Pinheiro e Hélio Delmiro)

"Eu te esqueci muito cedo
Pelo tempo que passou
Tal como um velho arvoredo
Que o vento não derrubou
Tronco mudado em rochedo
Pedra transformada em flor
E eu fui ficando sozinho no pó do caminho
Me desenganando, sofrendo e chorando
E mantendo em segredo
Essa minha ilusão
Que me escapou de entre os dedos
Pra não sei que outras mãos
E eu me tornei o arremedo
De tudo aquilo que eu não sou
Mas eu jamais retrocedo
O que passou passou
Já superei, mas só eu sei
O mesmo jamais eu serei
Feito a madeira o machado inclinando
Eu por fora estou cicatrizando
E por dentro sangrando, afastado do medo
Mas sozinho, tal como o velho arvoredo
Que não serve ao tempo nem ao lenhador
E o vento abandonou"

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Ranço

Quando tudo à minha volta estiver fácil, eu é que estarei difícil.
Ser completamante, sem ensaio, sedução, técnica, elegância, manejo, molejo. Eu sou fácil, sou qualquer coisa largada, felizmente. Por enquanto. Ranço.
O meu som te mexe sem se importar com teu gingado.
Eu gosto muito de mim. O mal dos deprimidos. Excesso de si.
Olhar de busca. Inclusive em cena. Ele sai, vai buscar onde não está. O quê?

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Aqui...

"...neste mesmo lugar..."

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O marinheiro

poema dramático de Fernando Pessoa

Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixão com uma donzela, de branco. Quatro tochas aos cantos. À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar.
Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela.
É noite e há como que um resto vago de luar.


PRIMEIRA VELADORA – Ainda não deu hora nenhuma.
SEGUNDA – Não se podia ouvir. Não há relógio aqui perto. Dentro em pouco deve ser dia.
TERCEIRA – Não: o horizonte é negro.
PRIMEIRA – Não desejais, minha irmã, que nos entretenhamos contando o que fomos? É belo e é sempre falso...
SEGUNDA – Não, não falemos disso. De resto, fomos nós alguma cousa?
PRIMEIRA – Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, sempre é belo falar, do passado... As horas têm caído e nós temos guardado silêncio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. Às vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu não sei por que é que isso se dá. Mas sabemos nós, minhas irmãs, por que se dá qualquer cousa?

(uma pausa)

A MESMA – Falar no passado – isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena...
SEGUNDA – Falemos, se quiserdes, de um passado que não tivéssemos tido.
TERCEIRA – Não. Talvez o tivéssemos tido...
PRIMEIRA – Não dizeis senão palavras. É tão triste falar! É um modo tão falso de nos esquecermos!... Se passeássemos?...
TERCEIRA – Onde?
PRIMEIRA – Aqui, de um lado para outro. Às vezes isso vai buscar sonhos.
TERCEIRA – De que?
PRIMEIRA – Não sei. Por que o havia eu de saber?

(uma pausa)

SEGUNDA – Todo este país é muito triste... Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse.
PRIMEIRA – Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!... O mar de outras terras é belo?
SEGUNDA – Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...

(uma pausa)
(...)

SEGUNDA – Contemos contos umas as outras... Eu não sei contos nenhuns, mas isso não faz mal... Só viver é que faz mal... Não rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes... Não, não vos levanteis. Isso seria um gesto, e cada gesto interrompe um sonho... Neste momento eu não tinha sonho nenhum, mas é-me suave pensar que o podia estar tendo... Mas o passado – por que não falamos nós dele?
PRIMEIRA (...) – O silencio começa a tomar corpo, começa a ser cousa... Sinto-o envolver-me como uma névoa... Ah! falai, falai!...
SEGUNDA – Para que?... Fito-vos a ambas e não vos vejo logo... Parece-me que entre nós se aumentaram abismos... Tenho que cansar a idéia de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos... Este ar quente é frio por dentro, naquela parte em que toca a alma... Eu devia agora sentir mãos impossíveis passarem-me pelos cabelos – é o gesto com que falam das sereias... (Cruza as mãos sobre os joelhos. Pausa). Ainda há pouco, quando eu não pensava em nada, estava pensando no meu passado.
PRIMEIRA – Eu também devia ter estado a pensar no meu...
TERCEIRA – Eu já nem sabia em que pensava... No passado dos outros talvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu... Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho... Por que é que correria, e por que é que não correria mais longe, ou mais perto?... Há alguma razão para qualquer coisa ser o que é? Há para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?
SEGUNDA – As mãos não são verdadeiras nem reais... São mistérios que habitam na nossa vida... às vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus... (...)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Dalí conversível

Pela primeira vez...!

Acho que pude demonstrar certa técnica. Um pouco simples demais pro meu gosto.

E meus olhos chegaram marejados, fechadinhos e vermelhos. Disse à menina que chorara por causa das janelas no descanso. Estou marejado ainda, a onda, a alma toda marejada, vermelha e fechada. Eu sou Luiz no delírio.
A conversão daliniana. Reparei numa foto de meu arquivo de trabalho (não tenho como refletir agora e buscar o termo mais acertado e eficaz, não, não no puedo). Olhei para o retrato e qual não foi meu espanto ao ver um cavalinho. Na verdade logo notei que eram dois meninos de figurino branco. Confundi Silva com Braga. Eu ando nessa, curtindo essa, entende, "sacô"?
Cuiudado com as coisas.
Ei, ei, vem aqui.
"...e quando estoura a saudade."

...simples demais pro meu gosto. Olhei por rosto dele e vi uma senhora loira. Sim, uma senhora...

- Péra aí! Quantos, Lucas? -
Tudo é tão feliz.
Estou feliz demais.

...uma senhora.
Não tem gosto. Ou é de amor, ou é de líquidos. Entendeu, meu irmão?

"No carnaval a gente vive a festa da carne..." [Homem na tv]
"Corta os pés e bebe vinagre que manda recado por meio insensato." [Provérbios, 26;6]
Ela está no forto e a aguardo com fervor.
Está passando, espero que sim.
Riso muito bobo aqui dentro.
"É necessário falar de camuflagem ou, mais precisamente, de exibição? Não será que toda exibição é um disfarce, uma imagem ambígua da realidade que se exibe? Não será que a camuflagem protetora é a contrapartida da necessidade napoleônica experimentada pelo eu para se impor exibindo-se?
(...) delírio alucinatório e mecanismo interpretativo são duas faces complementares de um mesmo ato psíquico." [Dalí, Ignacio Gomez de Liaño]
"Pois o suicídio não é somente um ato voluntário que, por si mesmo, seria um traço diferencial entre a possibilidade humana de suicidar-se e a do escorpião ou a do castor, mas também porque no suicida existe a vontade de não voltar a ter vontade de nada. Existe, pois, uma vontade que se volta contra si mesma. O animal, foi dito durante esta conversa, vive na satisfação e no ser, enquanto o homem, na insatisfação e numa estranha mescla do ser e do nada." [Dalí, Ignacio Gomez de Liaño]

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Pós Oiticica

Viver o amor é como tocar na juta e gostar. Entender a delicadeza macia do que é áspero. É esconder a luz com a mão. Esconder a luz, toca-la, abrir e fechá-la. É como chorar puramente. É como sorrir menino. Depois que se pisa nas pedras voluntariamente, tudo é mais leve. Sou água, sou ar.

Caminhei nas pedras, na areia, deitei sob a juta. Mas levei a mochila. Tirar os chinelos mas carregar a mochila deve significar. Deve querer significar o que não quero dizer: há coisas que não carecem poesia. É onde a poesia não dá pé. Meus atos são mais que completos e rezo para que a poesia esteja nos olhos de quem os vê. Vagueio buscando poesia nos olhos alheios e, quando encontro, isso dá muito prazer. Ou a poesia só está em mim e para sobreviver me invado de prazer. Poesia é escrever olhos.

Este carro é gordo, aquele outro é antipático e o senhor ali era um Omega.

Este rapaz é avestruz.

Um drama aconteceu na esquina mas há tempo para contemplar folhas.

A bolsa prateada vai adiante de você.

Subir e descer é delicado.

A juventude está em ti.

A igreja é filha da que quis chegar no céu, mas ela própria não quer – só veste as roupas dos antepassados, por isso é atarracada que só ela.

A linha reta destruiria vidas mas não posso dimensionar.

Tem cosias que são boas de olhar e não de penetrar.

Quando o grande está pequeno, escorregar pode ser bom.

Me desses um abraço e um violão.

Se existisse a palavra vipório, seria.

Não deixe sua filha cair.

Nunca se sabe se é sedução ou cumplicidade.