sábado, 6 de junho de 2009

Cristalino

No meio da água pura, de repente, se abre um vão em forma de sorriso. Somos tragados, eu e minha sede. Mas, satisfeito logo, me afogo no 5º gole. Agora é a água que me bebe e sua sede é maior que a minha. Ela me ocupa e me incha. Estou repleto. Agora estou boiando na superfície. Estou mais cristalino por dentro, mais puro. À água nada considerável ocorre: apenas uma vaga lembrança carregada por rios. E o que sou para os rios difere muito do que são torrentes e ondas nas minhas veias. Estou mais cristalino, mais puro. Se voltasse para dentro os olhos teria a visão insuportável de um eu transparente e franco e refletido mil vezes. Volto os olhos para o céu. Por que a água reflete sua cor? Por que bebe suas lágrimas sem dor? Há coisas que não dependem de mim. Há coisas que não sofrem minha ausência. Há coisas que amo. Coisas que detesto. Há pessoas que passam. Há narizes perfeitos. Há aviões que caem. Dedos do pé que se movem. Horas. Batidas na porta. Peles insípidas. Minhas lágrimas. Língua molhada. Céu-da-boca.

Um comentário:

dai. disse...

e há beckett e shakespeare.
e peixes e janelas. e sorrisos no jardim. e perguntas. a serem respondidas. e risadas. e conversas. e respostas. e danças. e músicas. e balas roxas e vermelhas. bonitas e atraentes. gostosas e sensoriais. e caronas. e beijos. e cenas. e crônicas. e tatianas. e lucass e dais. é. isso aí... rs. que vida. rs.
por não nos inforcamos?
porque não temos corda.
e o seu cinto?
quem se inforca primeiro?
(pensam)
gogo.
por que gogo?
didi leve, galho não quebra. gogo pesado. galho quebra. gogo fica sozinho.