domingo, 24 de maio de 2009

Contexto

O que é uma cadeira num país onde não se senta?

sábado, 23 de maio de 2009

Diário: Paredes

banalidade
A casa velha aqui do lado foi comprada e no lugar dela será feito um prédio de dois andares, dividido em duas residências. Minha família estva feliz, com móveis novos e obra, telhado... Hoje descobrimos que a costrução ao lado da nossa via nos tapar, vamos ficar só com a visão de um pedacinho de céu. Sufocados, úmidos, mofados. Parece bobagem, mas sou eu que sinto. O espaço me afeta. Não gosto de casa escura. Vou ser mais infeliz ainda.

delírio
...as paredes crescendo em torno. Dentro, as pessoas se abandonam à felicidade racionalizada, a lembrança, sobre redes, cadeiras e camas. Sentindo-se afundar até perceber que foi o resto que cresceu. Como acordar de tarde com gosto horrível na boca e uma fome dolorosa. Todos sairão da passividade individual, correrão pela sala, pelso cômodos, em nome exatamente da sala, dos cômodos, tocarão as paredes verdes, chorarão pelo tom antes tão vivo, pedirão perdão às paredes, a si mesmos. Abraços no sofá. A televisão será como antigamente. Canções embalarão nossos pequenos sonhos. Até que cada um se acostumará, esquecerá desses sonhos conjuntos, e retornará aos intransferíveis. O que se pode fazer?

Espelho

Bebi e me senti bonito.

Me olhei no espelho e vi que estava mais bonito quando sóbrio.

[1] Eu sou o que sinto?

[2] Eu sou o que vejo?

[3] Eu sinto o que vejo?

[4] Eu vejo o que sinto?

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Obrigada!

O amor não é medido por fotos no orkut. É a mesma coisa que um namorado que diz que te ama e te trai. A palavra amor não teve sentido nenhum. Palavras, códigos, imagens, tudo isso é vago. Até porque uma foto não é uma pessoa. Não cobre tanto das pessoas. É perigoso. Você pode se decepcionar e se tornar fria e fechada, sem confiança. Digo por experiência própria. Outro dia chamei pessoas para irem assistir uma peça e você foi uma das poucas que deu satisafção para não ir. As outras não deram notícia e fiquei esperando que alguém aparecesse. Ninguém apareceu. Isso dói. Muito. Mas não posso julgar ninguém. Fico pensando como medir os sentimentos. É possível?

Obrigada! De Verdade, Hoje posso responder sua Pergunta.

Eu Mudei...

Bjs, Raiz e Solo.

domingo, 17 de maio de 2009

Que Deus perdoe quem tem pena de cavalo

E que Deus me perdoe por minhas virtudes.
Aquém.
A quem?
Quando?
Ontem houve um carrossel e uma roda gigante em algum lugar. E eu estava neste lugar. Se eu disser que preferia a roda gigante, estarei mentindo, porque preferir não convém. A decisão é só minha. Os cavalos não têm culpa. Eles me olhavam, com seus olhos de cavalo tristes. Olhos de cavalo alegres. Pedintes. E giravam, sempre tão iguais. Iriam morrer de inveja e de dor me vendo girar pra cima e pra baixo e não para os lados como eles. E eu sei que todo cavalo de carrossel sonha em subir numa roda gigante.
Tomado de pena, subi no carrossel e me juntei a eles, no giro inútil. Observamos a roda gigante. Não sei se havia alguém. E se soubesse que havia, não saberia no que me serviria. São incertezas que eu crio - que nós todos criamos, não é verdade? não é verdade? - observando vazios que entendemos como passado. É que no carrossel tudo fica com essa cara assim, de painel. Se me amor me esperava na roda gigante, que continue esperando. E se não foi capaz de ver meu desespero em meio a cavalos, que vá embora e que não seja meu amor nem o amor de ninguém.
Não quero nada com quem não tenha pena de cavalos.

sábado, 16 de maio de 2009

Ator

, senti medo, vontade de chorar, angústia, aperto e, agora, uma leve vontade de vomitar. Não sei se estou preparado. Me violentar pra quem? Pra quê? Me superar? Será que eu realmente importo? Eu sem contexto? Às vezes perco o fio da meada. Às vezes as coisas perdem seus fios, e eu os busco em vão.
Mas agradeço à Tatiana, à Sara e à Amanda, por me fazerem sentir-me artista, estudante, pesquisador, curioso, e não ator. Na verdade não é a elas que devo agradecer, é a mim mesmo, porque não há responsabilidades e culpas alheias. Há tanto trabalho e sorriso, deveria na verdade agradecer a todos. É que ser ator tem me desestimulado. Depois de 10 anos ou mais. É como sentir-se inútil de repente, sem arrependimento.

domingo, 10 de maio de 2009

Metade de coisas

Morava abaixo de quase-tudo [falo do que se pode tocar]. Sua janela dava para uma metade de coisas, coisas inúteis para o olho, cortadas no meio. Um dia resolveu se olhar no espelho e observou que seu rosto, quando levemente inclinado para baixo, tinha uma beleza ainda não descoberta. E o que acabara de descobrir não seria descoberto por mais ninguém, posto que estava abaixo do nível de tudo e tinha que exibir seu rosto levemente voltado para o alto. A sua dor maior se tornou saber de algo que ninguém poderia saber. Algo que não podia comunicar. Mas eis que um dia entrou num corredor de um lugar admirável, onde estavam todos sentados e pode experimentar a vertigem sorridente de olhar para baixo, inclusive para um grande amor que - só agora notava - tinha uma falha nos dentes. Duas crianças foram atropeladas simultanente em lugares distintos - um que se conhecia, outro que pouco se conhecia. A criança do lugar conhecido morrera. A criança do lugar desconhecido - não sei, ela sorria, fora atropelada como um objeto, sem reação, mas em algum lugar havia um sorriso; e não sei se foi salva. De repente tudo se fez grande. Magro, pequeno, frágil, poeira, graveto, mistério. E grande.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Amigo, amiga.


"Nada de triste existe que não se esqueça
Alguém insiste e fala ao coração.
Nada de triste existe e não se esquece
Alguém insiste e fere no coração.
Nada de novo existe neste planeta
Que não se fale aqui na mesa de de bar."
(Milton Nascimento - Fernando Brant)

Só posso agradecer. Porque são palavras do amigo, e é a voz da amiga. E choveu de um céu que também é meu. Um céu que é nosso. Então estaremos eternamente úmidos?, pelo céu que nos chove umas gotas que são tão próprias e que nos dizem sem o querer? Elas não dizem nada, mas nós inventamos dizeres. E estaremos úmidos também, amigo, sob as lágrimas que deixa chover?


"Choveu

Chovia tanto,

que transbordávamos angústia,

era o fim.

Estávamos sós e,

só havia o pó de nós

E morríamos."

(Luiz Paulo da Mota Reinol)


O rato morto

...e havia um rato morto dentro de mim. Tive que retira-lo com cuidado, aceitando a responsabilidade sobre sua morte. Porque ele entrou e mim na esperança de habitar-me e se deparou com o vazio. Talvez não tenha morrido de fome, exatamente. Talvez tenha morrido de susto, que do vazio sempre emerge o que é ausente, e o vazio não é não haver – é vestígio. Ou talvez tenha se suicidado diante de uma liberdade absoluta e solitária. E talvez eu também esteja habitando um vazio, talvez o vazio de alguém. E todos estejamos trancados no vazio de Deus. E talvez Deus seja um menino sonhador, cujos pais trabalham fora o dia inteiro. Talvez estejamos na imaginação do menino, ocupando seu vazio. Talvez ele um dia seja atropelado e morra com nós todos. Talvez perca a memória e todos desapareçamos, dando lugar a coisas que nem podemos dimensionar. Talvez estejamos no vazio de seu estômago e determinemos sua fome. Talvez nos vomite um dia, porque posso sentir seu estômago, suas contrações. Estamos entalados na sua garganta! Não vamos deixar que abra a boca e nos diga, nos transforme em sons, em palavras incomunicáveis. Que ele permaneça mudo, e sob nosso comando.

Sonho

Fui em um aniversário e não me despedi do aniversariante.
Sonhei que me despedia, sim, e quase sem querer encostávamos os lábios. E continuamos encostando como quem não tem maldade – maldade é, ao mesmo tempo, palavra equivocada e oportuna, pois 1 + 1 é infinito e duas existências compreendem vazios – . Logo a maldade foi molhando nossos lábios ásperos e eu me tornei mais alto – ou talvez estivesse degraus acima, numa escada que não se sentia. Sua cintura era macia. Não sei – e não sabia no próprio sonho – se ele fugia ou se criava um estranho jogo. Também não sei se fui embora ou se me despedi e fiquei.
Se ele ler o que escrevo – quebra de continuidade. – Me sentirei a coisa menor do mundo. E... já sinto. Estou pré-sentindo. Pré-sinto e pós-sinto, passo me observando, por cima, por baixo, pelas beiras das emoções, roçando nelas, talvez, a barra de minhas calças. Me vejo. Ali: pra dentro, curvado sobre si (sobre mim), para dentro de si (de mim!). Como me comovo. Sou meu espectador e meu ídolo.

Encouraçado

(Sueli Costa e Tite de Lemos)

"Encouraçado nos meus agasalhos
Nesta vaguíssima avenida
Nesta lentíssima espreguiçadeira
No seio desta tarde confortável
Distante fugitivo
Da primitiva aldeia dos macacos
Onde cresci, onde me debrucei
E de onde fui expulso
Por raiva e desafio
Ao berço e à dinastia
Eu, bandoleiro
Eu, o proscrito
Eu, o fora da lei
E o que fazer
Eu quero, eu quero, eu quero

Encouraçado nos meus agasalhos
Nesta vaguíssima avenida
Nesta lentíssima espreguiçadeira
No seio desta tarde confortável
Exalo com voz cava
Os mais terríveis urros, vaticínios
A 100 mil anos luz
Da Palestina, da China e da Abissínia
Por raiva e desafio
Ao berço e à dinastia
Eu, bandoleiro
Eu, o proscrito
Eu, o fora da lei
E o que fazer
Eu quero, eu quero, eu quero

Encouraçado nos meus agasalhos
Nesta vaguíssima avenida
Nesta lentíssima espreguiçadeira
No seio desta tarde confortável
Contemplo a maravilha
A doce madrugada de Sodoma
Que os índios vão tomar à mão armada
Aos uivos e vagidos
Por raiva e desafio
Ao berço e à dinastia
Eu, bandoleiro
Eu, o proscrito
Eu, o fora da lei
E o que fazer
Eu quero, eu quero, eu quero, eu quero, eu quero, eeeeu... eeeeeu...."