Morava abaixo de quase-tudo [falo do que se pode tocar]. Sua janela dava para uma metade de coisas, coisas inúteis para o olho, cortadas no meio. Um dia resolveu se olhar no espelho e observou que seu rosto, quando levemente inclinado para baixo, tinha uma beleza ainda não descoberta. E o que acabara de descobrir não seria descoberto por mais ninguém, posto que estava abaixo do nível de tudo e tinha que exibir seu rosto levemente voltado para o alto. A sua dor maior se tornou saber de algo que ninguém poderia saber. Algo que não podia comunicar. Mas eis que um dia entrou num corredor de um lugar admirável, onde estavam todos sentados e pode experimentar a vertigem sorridente de olhar para baixo, inclusive para um grande amor que - só agora notava - tinha uma falha nos dentes. Duas crianças foram atropeladas simultanente em lugares distintos - um que se conhecia, outro que pouco se conhecia. A criança do lugar conhecido morrera. A criança do lugar desconhecido - não sei, ela sorria, fora atropelada como um objeto, sem reação, mas em algum lugar havia um sorriso; e não sei se foi salva. De repente tudo se fez grande. Magro, pequeno, frágil, poeira, graveto, mistério. E grande.
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2 comentários:
"(...) Mas eis que um dia entrou num corredor de um lugar admirável,(...)"
ai, que vontade de ser um personagem dos escritos de Lucas Nascimento...
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