quinta-feira, 31 de julho de 2008

Rascunhos antigos II (ou Pedaços de cais)

TRECHOS DA PEÇA QUE EU ESCREVIA HÁ UM TEMPO.

1

(O cenário remete a um cais.

Luz sobre o pai, sentado, na direita-baixa. Ele fala entre a nostalgia e a melancolia, como quem conta uma velha história para uma criança.)

PAI – Nós dançávamos nos bailes, porque havia muitos bailes, e corríamos por aí, livres, como crianças. Rolávamos na areia, olhávamos as estrelas. Fazíamos planos. Ela sonhava muito.sonhava por mim e por ela. Gostava do mar, gostava de ver seu rosto refletido na água, de ver a imagem... oscilando. Gostava das ondas levando e trazendo seu rosto. Levando e trazendo...

(No final de sua fala a luz foi caindo enquanto o centro do palco foi sendo iluminado: Maria e Paulo sentados, lado a lado, diante do mar. Em tom de idílio, a moça continua a história contada pelo pai.)

MARIA – ...até que um dia... um dia ela quis ir atrás do seu rosto...

PAULO – E morreu.

MARIA – E morreu. Como é que você sabe que foi assim?

PAULO – Você já contou essa história. Você conta... sempre.

MARIA – Desculpe.

PAULO – Eu não me incomodo. Eu gosto.

MARIA – Meu pai me contou essa história há algum tempo. Eu sempre peço pra ele contar, ele conta tão bem, é como se ele sonhasse. Os olhos ele brilham quando fala dos bailes, da areia. Eles elhavam as estrelas, eles... eram tão felizes. E olhavam o sol se pondo.

PAULO – Como nós agora.

MARIA – E eram tão felizes.

PAULO – Como nós agora.

MARIA (um pouco assustada com a comparação) – Como nós agora.

(Silêncio.)

MARIA – Ela era tão bonita. Quer dizer: papai diz que era, eu não lembro, eu não lembro de nada, de nada. O papai diz que era bonita como eu.

PAULO – Você me ama?

MARIA – Amo.

(Silêncio.)

MARIA – Meu amor, o que tem depois do mar? Do outro lado, o que é que tem?

PAULO – Não sei.

MARIA – Eu queria saber. Eu queria tanto saber.

PAULO – Por que você está falando essas coisas? Você não tem medo?

MARIA – Não.

PAULO – Devia ter.

MARIA – Por quê?

PAULO – Tua mãe – não teve medo.

MARIA (sentida) Por que você flou dela? Minha mãe, ela só queria ver o rosto...

(Luz sobre o pai e a madrasta de Maria. Ele tem um quê de patético, um ar de perdido, confuso. A madrasta, durante o diálogo, vai passando da indiferença, da secura, para a impaciência.)

PAI – Eles devem estar na beira do mar.

MADRASTA – Nós também.

PAI – Eles estão muito na beira.

MADRASTA – Nós também estamos muito na beira.

PAI – Eu falo porque tenho medo.

MADRASTA – Medo do quê?

PAI – De que um dia ele a empurre, a empurre sem nem usar as mãos. Eu vivo pensando nisso. Ela caindo com um sopro. Ele soprando e ela caindo. Eu não confio no Paulo. Faz tanto tempo que eu nem durmo pensando nisso.

MADRASTA – É claro que você dorme.

PAI – Não, eu não durmo.

MADRASTA – Você com suas histórias!

PAI – Como é que você sabe?

MADRASTA – Você deita todas as noites. Pede para eu ir para cama também. Eu vou, como sono ou sem sono. Você dorme. Eu é que não durmo, fico ouvindo seus roncos, ouvindo esse mar. Aí você acorda de manhã e eu já estou de pé. Você se espreguiça, boceja, se levanta. Toma o café. E é só. Eu acho que é só.

PAI – Que é que você quer dizer com isso?

MADRASTA – Só quero dizer o que eu disse: que você dorme, e sonha com essas coisas.

PAI – Você quer saber mais do que eu?

MADRASTA – Por que é que você sonha com ele empurrando tua filha? Você nunca sonhou com ela caindo sozinha?

PAI – Por que é que minha filha ia cair sozinha?

MADRASTA – Não sei. Você é o pai. Você é que deve saber.

PAI (subitamente a observa, fala com um ar distante e desgostoso) – Sua cara, esse seu rosto... Você tem uma cara de... perda.

(Luz sobre Paulo e Maria.)

MARIA – Paulo. Eu vi um barco.

PAULO – O quê?

MARIA – Um barco. Bonito. Com vela. E gente dentro.

PAULO – Um barco?

MARIA – Eu já tinha esquecido como é gente, Quer dizer: além de nós... Os rostos dos outros. Eu já estava sentindo que só havia nós quatro no mundo, como se o tempo tivesse nascido com a gente fosse acabar quando a gente morresse; como se além do mar não tivesse mais nada, e nem lá atrás, atrás dos montes. Como se tudo fosse aqui.Mas eu sentia. Eu tenho certeza agora.

PAULO – Quando você viu?

MARIA – De manhã?

PAULO – Por que você não me contou?

MARIA – Não sei. Eu fiquei com medo. Eu acho que é o menino. Ele que estava no barco.

PAULO – Que menino?

MARIA – Você não lembra dele?

PAULO – Não.

MARIA – Que estranho. Pensei que você lembrasse. Ele brincava comigo quando éramos crianças. Mas ele foi embora. E voltou agora. Voltou pra me contar o que tem do outro lado.

PAULO – Amor.

MARIA – Fala.

PAULO – Não vá se perder.

2

(Na mesa de jantar.)

PAI – Vocês estavam longe hoje. Onde foram?

MARIA – Fomos na praia.

PAULO (espantado) – Eu juro que não pus minha cara pra fora dessas janelas hoje...

MADRASTA – Ela está dizendo que você foram na praia.

MARIA – Eu nem me lembro.

(Comem.)

PAI (nitidamente para quebrar o silêncio) – A comida está muito boa hoje, mulher.

MARIA – É, está muito boa.

MADRASTA (seriamente, sendo abafada pelos elogios) – Obrigada.

PAULO – Está... com um sabor... especial.

PAI – É. Algo que lembra... sol. Um sabor que me lembra sol, entende?

PAULO – Um gosto forte.

MADRASTA – Obrigada.

(Silêncio. Não há nada para se dizer.)

MARIA –Depois do mar tem sol?

MADRASTA – Tem, minha filha.

MARIA – Sua comida tem cheiro de sol e gosto de luz.

MADRASTA (contida) – Eu tempero com minhas próprias lágrimas.

PAI (exaltando-se) – O que é isso? Como é que você diz uma coisa dessas, assim, diante de mesa, diante da minha filha?

MADRASTA (revelando certo cinismo) – Eu não queria dizer nada, eu disse, sem querer. Você sabe que eu nunca digo nada.

PAI – Você sempre diz, diz muitas coisas, você sabe disso.

MADRASTA – Eu digo? Eu nem percebo.

3

(Idem.)

PAI – O peixe está diferente.

PAULO – Prefiro o peixe do riacho.

PAI – Do riacho, do mar, tanto faz. Não é disso que eu estou falando. O peixe já não tem o mesmo sabor.

MARIA (com certo cansaço) – É porque é o mesmo, é exatamente por isso...

MADRASTA (interrompendo sem intenção) – Onde eu morava quando era criança havia um riacho.

PAI – Há riacho por tudo que é lado, em todos os lugares.

MARIA – Tem riachos do outro lado do mar?

PAI – Não sei, minha filha.

MARIA – Paulo. Tem rios lá do outro lado? Como é que eles são? Iguais?

PAULO – Tem, muitos rios.

MADRASTA – Isso eu mesma poderia supor. Se tem mar do outro lado tem que ter rio. Não são os rios que fazem o mar? (silêncio) Era o que meu avô dizia, ele sempre me ensinou. Então por que é que eu ia querer conhecer o mar, se eu tinha algo muito melhor?

MARIA (para Paulo) – Os rios do ouro lado não são muito mais bonitos?

PAULO – Não, Maria. São iguais. (levanta-se)

MARIA (para a madrasta) – Ele diz isso só pra não te ofender. Eu sei porque ele me conta. Do outro lado tudo é tão cheio de luz que esses seus olhos tristes cegariam. Lá não tem espaço pra lamentar e lembrar do passado como você faz. Porque lá todo mundo é feliz.

4

MADRASTA – Se eu cegasse como ela disse. Meus olhos iam preferir cegar mesmo, pra não enxergar essas luzes que não têm sentido. Sei o que Paulo conta. São noites cheias de luz. Imagino que as manhãs deles sejam escuras, (ri, irônica) devem apagar a luz do sol. Claro, porque ninguém ia suportar tanta luz o tempo todo.

PAI – Eu, por exemplo, não suporto a luz do farol.

MADRASTA – Do farol?

PAI – Quando minha mulher era viva, e quando nós éramos jovens, e havia mais gente, aqui, havia um farol. A luz dele me persegue até hoje, eu fecho os olhos e vejo. De noite é como se a luz dele ainda estivesse lá, iluminando nossa cama, nossa...

MADRASTA – ...solidão...

PAI – ...do mesmo jeito que iluminava aquele amor.

MADRASTA – Como as estrelas... Que já explodiram mas continuam brilhando.

PAI (espantado) – O quê?

MADRASTA (doce) – As estrelas. Essas estrelas que vemos já explodiram. Vovô me dizia. Mas a luz delas, a luz é o que a gente vê.

PAI – Você fala como se rogasse uma praga. Você é uma praga.

5

MARIA – A senhora lembra da minha mãe?

MADRASTA – Não.

MARIA – A senhora conheceu a minha mãe?

MADRASTA – Não.

MARIA – Meu pai falava que ela era muito parecida comigo.

MADRASTA – Você repete isso todo dia.

MARIA – E que ela era diferente da senhora.

(Pausa.)

MARIA – A senhora tem vontade de sair daqui?

MADRASTA – Por quê? Você tem?

MARIA – Eu tenho.

MADRASTA – E o seu marido?

MARIA – Ele vai comigo.

MADRASTA – Você sabe que não. Aí ele vai ficar só. Vai ter que buscar uma mulher pelas estradas, casar com qualquer uma.

MARIA – A senhora deve ter tido uma vida muito triste, né?

MADRASTA – Não.

MARIA – Por que a senhora é tão seca?

MADRASTA – Por que você é tão alegre?

MARIA – A senhora morava aonde?

MADRASTA – Longe.

MARIA – Depois daqueles montes?

MADRASTA – Depois. Bem depois. Você não ia gostar de lá.

MARIA – Por quê?

MADRASTA – Porque não tinha mar. Você adora o mar. Mas eu levava uma vida feliz. Éramos eu e minha mãe.

MARIA – Eu não quero saber.

MADRASTA – Você tem medo de acreditar, não é?

6

PAI – E as flores, como estão?

MADRASTA – Mortas.

PAI – Você não as rega?

MADRASTA – Quem rega é a tua filha. Regava. Parou de regar.

PAI – Por quê?

MADRASTA – Não sei. Pergunta pra tua filha.

PAI – A minha mulher gostava muito daquelas flores. Desde que fiquei doente as coisas começaram a mudar. O que é que está acontecendo? É porque estou aqui deitado.

MADRASTA – Não é porque você está deitado. Se estivesse de pé não faria diferença. E se as flores existem não é por causa da sua mulher. Onde eu vivia também havia flores, mais e mais bonitas, e não era por minha causa que elas existiam, disso tenho certeza. Tua mulher morreu, por que é que as flores não podem morrer também?

7

MARIA – O sol me acordava toda manhã. Eu saía por aí, catava conchas. Brincava com a areia. Na hora da maré alta voltava para casa. E ficava só olhando o mar.

Eu gostava de pular poças. E quando pulava pensava se o mar também não era uma grande poça e quem fosse maior do que eu poderia pula-lo:

- Papai, você pode pular o mar?

- O que, minha filha?

- O mar parece uma poça.

E assim como a água da poça se mexe, quando alguém pisa nela, ou cai uma pedra, talvez as ondas do mar sejam isso: os passos de Deus. O pé de Deus. (Muda de tom) Mas eu não acredito em Deus. Nem nesse Deus que está longe de que meu pai fala, nem nesse Deus que Paulo diz que está dentro de nós. A oração que mamãe me ensinou eu só rezei quando esperei. Quando esperava por meu pai, quando ele saía nas suas andanças; quando esperava alguém que viesse, me segurasse pela mão e me fizesse atravessar o mar.

8

PAULO – A areia pode ser mais inconstante que o mar. Ela é várias, muitas, muitos grãos, pedaços. O mar. O mar é único. Estranho como a inconstância do mar e a inconstância da areia, quando se encontram, ficam tão sólidas. A beira.

Eu sou um cais.

Sempre fui a beira em busca de um mar.

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