Revelar o que é o amor para mim com certeza traria espanto e desprezo. E como não suporto estar livre sozinho, lutar por essa liberdade, como não posso ser isento – pediria perdão. Perdão por me assumir secamente, perdão por pedir ajuda. Pedir ajudar já seria o mesmo que pedir perdão.
Mas prefiro, ainda, revelar as raízes sujas e tristes do que sinto, que fazer da coisa que se julgava a mais bela do mundo um pacote que se compra segundo certas conveniências (meu amor não é conveniente, meu desejo não tem marca: eis o pouco do que posso me orgulhar). E prefiro calar o “eu te amo” pelo medo de estar mentindo. O ato de calar seria fazer amor. Escuta: silêncio de amor.
Vou dizer bem devagar para não sofrer, para enquanto estiver dizendo já estar pensando em outra coisa. Ou será preciso dizer tão rápido que a palavra apenas entre em vocês?, de forma que continuem tomando suas cervejas escondendo, sem saber, a partir deste momento, um segredo bastante triste.
Entro na sua casa e escondo na sua gaveta o seguinte: meu amor nasce da inveja. Saio cauteloso e continuo a viver, livre do meu segredo. Um dia você abre a gaveta e se depara com um segredo que não é mais de ninguém. Será que foi você que guardou ali? Agora é seu. Toma. Agora o segredo é seu.
Mas prefiro, ainda, revelar as raízes sujas e tristes do que sinto, que fazer da coisa que se julgava a mais bela do mundo um pacote que se compra segundo certas conveniências (meu amor não é conveniente, meu desejo não tem marca: eis o pouco do que posso me orgulhar). E prefiro calar o “eu te amo” pelo medo de estar mentindo. O ato de calar seria fazer amor. Escuta: silêncio de amor.
***
UM – Eu te amo.(Longa pausa. Dois sorri e não responde. Leve constrangimento de Um. Dois decide-se e fala com certo encantamento.)
DOIS – Eu tenho medo de mentir.(Um parece não compreender. Luz somente sobre Dois.)
DOIS – Eu tenho medo de mentir porque não sei o nome do que sinto. Se eu disser qualquer coisa eu posso te trair, entende? Vamos ficar em silêncio. Não vamos dizer nenhuma palavra que não seja digna de quebrar esse silêncio. Não vamos desperdiçar a vida. (pausa) E por favor, nunca me pergunte se eu te amo. Se eu precisar eu grito. Eu grito. Eu juro que eu grito se precisar de alguma coisa. E agora, por favor, você pode ir embora, se você quiser. Eu preciso ficar um pouco só, se eu precisar eu te chamo. Eu juro que eu te chamo.***
Vou dizer bem devagar para não sofrer, para enquanto estiver dizendo já estar pensando em outra coisa. Ou será preciso dizer tão rápido que a palavra apenas entre em vocês?, de forma que continuem tomando suas cervejas escondendo, sem saber, a partir deste momento, um segredo bastante triste.
Entro na sua casa e escondo na sua gaveta o seguinte: meu amor nasce da inveja. Saio cauteloso e continuo a viver, livre do meu segredo. Um dia você abre a gaveta e se depara com um segredo que não é mais de ninguém. Será que foi você que guardou ali? Agora é seu. Toma. Agora o segredo é seu.
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