sábado, 26 de setembro de 2009

Um conto

Mesmo acachapado pela fome das gerações anteriores, se dava ao direito de preservar certas manias. Quando pequeno, por exemplo, preferia a parte de cima do pão francês, a que tem um rasgo, que lhe parecia mais crocante. Mas um dia sentiu muita pena da parte de baixo e, cortando o pão em duas bandas, se forçou a acreditar que a de baixo, a que tem bolinhas, era mais gostosa, deixando-a para comer, a partir de então, sempre por último. Quando havia queijo, punha sempre na primeira banda e deixava a segunda apenas com manteiga, talvez por pena da manteiga também, ou para sentir sua nova banda do pão francês predileta com mais pureza. Coincidência ou não, gostava de sorvete de creme e se atraía por homens de palidez sem rosa e com olhar angustiado.
Pois bem, se dava ao direito da obsessão, o que, na terra de sua mãe, era frescura. Na terra de sua mãe, na casa de sua mãe, onde se dividia um ovo cozido para onze filhos, seria frescura. Em Ipanema também seria frescura. E ele, que não vivia nem no sertão nem em Ipanema, se mantinha numa posição depressiva, estática, mas bastante confortável, pois de onde observava tinha do que comover-se e do que crispar-se de ódio.
(Um sonho que inventou: Estava numa sala, onde seu pai e sua mãe lhe oprimiam contando histórias de secas e fomes e contabilizando o que possuíam. Havia uma única porta, dando para uma grande festa, sua única saída. Mas se saísse por ali teria de cruzar com tanta gente, tendo, talvez, que dançar danças que não cabiam no seu corpo, sorrir sorrisos que doeriam tanto na face. Então se transformou em dois e conversou consigo mesmo.)
Certo dia, numa igreja – fora um menino cristão – antes de um sacramento, confessou-se. Enquanto ia dizendo pequenos e comoventes pecados de criança, lhe ocorreu que não acreditava mais em Deus e que, em contrapartida, seus bons pais haviam passado fome e trabalhado desde pequenos em roças de horizontes muito distantes, não lhes restando outra perspectiva senão segurar na mão de Deus e ir mesmo. Lhe ocorria também que não considerava sua recém-descoberta atração por garotos um pecado, pois uma pessoa que se compadece de um pedaço de pão não poderia fazer mal a ninguém (eis sua vaidade). Não ia dizer-se homossexual ao padre, mas como iniciara seu relato sobre os conflitos familiares, agora tinha que prosseguir, teria que dizer por sinceridade e lógica, porque se aquele padre estava tão envolvido em mentiras, alguém teria que lhe dizer uma verdade. Mas teria que dizer sem responsabilidade e sem submissão. Com sinceridade boa e cinismo audaz, concluiu: ...porque sou homossexual. O padre, velho, sério, de personalidade ensaiada, até então muito complacente diante da pureza do rapzinho, demonstrou leve choque e mudou seu tom: – isso é muito diferente, você precisa procurar um tratamento, isso é muito sério.
Talvez ele tenha confessado ao padre somente para despertar raiva em alguém, para constatar o preconceito – o preconceito confirmado, teria agora referências para odiar. E pode, livre, odiar o padre.
Desconfio que quando observou as duas bandas do pão, descobriu quem realmente era, e tendo pena do pão, entrava em contato com a pena que sentia de si próprio. Se colocando no alimento podia observar-se fora de si, e amar-se e ingerir-se. Sim, ingerir-se. Criança desesperançosa, sabia que teria de consumir a si próprio – desde cedo o medo de ser um vaso bonito numa estante.
Passado o tempo, de fato, tornara-se um vaso muito bonito na estante e muitas outras coisinhas que adquiria na tentativa de se entender e se fazer entender, como se alguém, chegando em seu quarto, observando suas prateleiras, pudesse absorve-lo todo, de uma vez só. Seria uma dessas doenças contemporâneas? Mas isso era frescura, eu já disse, e ele se forçava a acreditar que era. Ter prateleiras, por exemplo, era um luxo que ninguém compreenderia. Às vezes se surpreendia olhando suas coisas e pensando, o que incomodava muito seu pai. Não podia perder tempo pensando, tinha que produzir. Não podia ficar triste nem doente porque remédio é caro, assim como cigarros. A música não servia para nada e o pai não entendia para que tantos amigos, afinal amigos não trariam anda de bom mesmo. Tinha de procurar o caminho estreito.
O que não sabiam é que buscava sim o caminho estreito – não o caminho rumo a Nosso Senhor Jesus Cristo, mas o caminho estreito que leva a absolutamente nada, nenhum ponto final, a estreiteza do caminho por si só. Investigando demais a si próprio e às relações, deixava que problemas, compromissos ou hipóteses vagas se tornassem maiores em sua cabeça: antes que qualquer coisa real tivesse acontecido, já tinha tomado uma proporção enorme dentro dele. Certa vez, imaginou, por exemplo que, tendo um amor, seria traído por ele com um amor antigo; estando num lugar com muita gente, iria chorar no banheiro, onde diria tudo o que pensava, numa pequena forma de se vingar do mundo. Esse outro eu que pré-vivia tudo com emoção de quem existe, também como quem existe, foi destruindo sua capacidade de se apaixonar, pois só sonhava com o que poderia ter acontecido, o que é o mesmo que brincar de sonhar.
Não poderia haver caminho mais estreito. No meio do caminho alguém lhe disse, um dia, que era cruel. Ele sorriu e ficou realmente feliz com a sinceridade. Sabia, no fundo, que detrás da pena está uma grande arrogância. E se eu terminasse esse relato aqui, diria que ele era muito feliz.
Mas ele tinha uma grande amiga que, sendo muito decidida, pôs uma canção dos Beatles para tocar repetidas vezes, tomou seus remédios, segurou sua boneca e morreu. Então a vida ficou estreita de verdade e por si só, e ele, que sempre criara suas dores para ser reconhecido por si próprio, pra representar qualquer coisa neste mundo, se viu perdido, porque tudo o que sabia fazer era se inventar. Agora que a vida havia inventado para ele um desespero tão palpável, não tinha mais função no mundo; e finalmente posso escrever “frescura” sem nenhuma ironia, apenas com autopunição seca, não espetacular. Uma autopunição que não quer dizer nada.
De repente a vida lhe pareceu uma grande paisagem. Então fez as malas.

2 comentários:

A gaivota. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
A gaivota. disse...

é quando começa o anoitecer que entendemos pq as flores são tristes...esse, o do conto, que sonhou que era homossexual, que não acreditava em Deus e que perdeu a grande amiga da sua vida; me fez entender pq algumas coisas são como são e, eu me pergunto por que eu fujo delas se há maneira de ser sem elas. "Rio, 8/9/09. Eu não sei porque de repente, todas as coisas parecem irremediavelmente sós. Por que assumem cor de amarelo triste. E não há o que eu consiga solucionar. Tudo vai vazando, a expressão se vai perdendo de mim e, todos os sentidos (...)". É como se o maior desejo daquele dia fosse de que ele acabasse logo, sem dar-me conta de que o único significado para isto é desejar a morte, porque os dias perdidos para a tristeza não voltam e os dias vencidos pela alegria não chegam. Muitos professam que um dia surgirá. Mas, se ele (o amor próprio) não estiver meu princípe encantado poderar me notar? Ou ele vai se notar em mim? O que acontece? O que acontece? Parece que está perdendo o ritmo. Vou destacar coisas que me assustam em você. É bem verdade que as coisas que realmente mexeram comigo você, talvez, jamais saberá. "Coincidência ou não, gostava de sorvete de creme e se atraía por homens de palidez sem rosa e com olhar angustiado.
Pois bem," -- "E ele, que não vivia nem no sertão nem em Ipanema, se mantinha" -- "alguém teria que lhe dizer uma verdade. Mas teria que dizer sem responsabilidade e sem submissão. Com sinceridade boa e cinismo audaz, concluiu: ..." -- "Se colocando no alimento (...) Sim, ingerir-se. Criança desesperançosa, sabia que teria de consumir a si próprio – desde cedo o medo de ser um vaso bonito numa estante.
Passado o tempo, de fato, tornara-se um vaso muito bonito na estante" -- "Certa vez, imaginou, por exemplo que, tendo um amor, seria traído por ele com um amor antigo; estando num lugar com muita gente, iria chorar no banheiro, onde diria tudo o que pensava," -- "Esse outro eu que pré-vivia tudo com emoção de quem existe, também como quem existe, foi destruindo sua capacidade de se apaixonar, pois só sonhava com o que poderia ter acontecido, o que é o mesmo que brincar de sonhar." -- "isso é muito sério." -- "e ele se forçava a acreditar que era. Ter prateleiras, por exemplo, era um luxo que ninguém compreenderia.". E como bom dramaturgo que és...seu Édipo se esvai, indo embora.