domingo, 15 de junho de 2008

AUTORIA 2
AULA DA PAIXÃO

E então tudo desmoronou.

A ausência maior não é a do que eu poderia ter feito, do que eu deveria ter dito. Hoje não quero cobrar nada.

Ontem ao telefone: o fulano tá casado? Não sei. Tava no orkut ele disse que depois me mostrava a foto sejam felizes felizes felizes para sempre. A felicidade dos outros dói um pouco quando sei que ela poderia ter sido minha. Ricardo III.

Eu estou aqui. Daqui deste salão eu posso observá-los. O dia havia começado nublado mas agora está iluminado. Se a luz fosse suficientemente forte pra deixar tudo transparente, mostrar a alma das coisas, daqueles tijolos. Arco-íris. Corpo sobre corpo. Ele viu e deveria ter colocado na boca. Talvez isso pudesse ter salvo tudo. Por que você não fez isso? Viu? Agora ele está lá, com alguém para esquentá-lo. E você no canto do salão. Me dá uma pena e uma raiva quando te olho. Você foi fraco, menino. Muito fraco. Onde você enfiou sua paixão?

Houve, sim, quem pudesse me ter salvo. Mais que isso. Muito mais. Ele gostava de Hitchcock e trabalhava na São José. Andava engraçado, tinha os olhos grandes, e isso basta. A alma transbordava, vazava pela palidez, pelos pêlos, e isso basta.

Não vê como me sinto só e vazio? O meu travesseiro sabe.

Do primeiro tenho saudades pelo que vivi.

Do segundo, tenho saudades pelo que não vivi.

Você parece água. Me lava. Continuo intacto, mas minha pureza é suja. E você não tinha o direito! E eis que um dia você não me abraçou. Eu pus o braço em volta da tua cintura, mas você não pôs o braço no meu ombro. Pra disfarçar, fingi que procurava algo no bolso. A ausência ao redor do meu pescoço. A vergonha. Como Adão e Eva. E nos expulsamos do paraíso. Deus não meteu o dedo, Deus não escutou tuas promessas, não beijou na tua boca. Se ele tivesse beijado teria se apaixonado. Como todos. E teria sido abandonado também.

Minha culpa, minha tão grande culpa.

E se eu tivesse ido para as boates? E se eu tivesse lutado? E se houvesse provado? Me humilhado? Se eu fizesse uma cirurgia de aumento peniano? Se eu tivesse chorado? Se eu tivesse feito arroz pra você? E se o sol tivesse nascido sobre nós? Mas nunca... nunca... nunca... Eu não abriria mão de mim.

Vocês dois patinavam no gelo.

Vai ver foi isso, né?

Mas vocês se enganaram. Eu sou muito mais quente do vocês todos, e tenho lutado para não esfriar. Não vou rir dos outros nem me encher de vícios. Vícios já tenho de sobra, queridos.

E diante do computador: estou namorando. A vida leva a gente por outros caminhos. Ah! é mesmo? É mesmo? Pois o meu caminho continua o mesmo... e não há esquinas. Minha estrada, reta, segue no caminho contrário do sol. É que o sol que te ilumina me queima, meu bem. Meus bens.

“Eu quero pesar feito cruz nas tuas costas”, ficar cravado, e sangrar do teu corpo, escorrer, deslizar...

“...porque foste o que tinha de ser”.

E “o que foi feito, não está por fazer.”

O fato é que eu estou aqui e vocês estão aí.

Ontem foram muitas palavras.

Você, é água e eu bebi e me afoguei. Estou tentando me salvar até agora.

Você é o vento. Voei com você, mas caí.

Caí no mar, é isso. Se eu permaneço no fundo, me afogo. Se eu saio, respiro esse ar que o vento traz. Entre o mar e o vento. O que eu sou? devo ser areia. Vocês aceitam que eu seja areia? Vocês aceitam que eu seja?

2 comentários:

Tamires Nascimento disse...

"E eis que um dia você não me abraçou" Podia ser tudo diferente... Ai... cansada de me arrepender do que fiz E do que não fiz...

palavras angustiantes pessoinha...

LuCais disse...

Pois é. Mas se eu quisesse relamente, eu teria gritado. Não gritei. Deixei o rio correr, sem me afogar, olhei tudo indo embora com muita calma e muita dor. Agora até consigo esboçar um sorriso...