quarta-feira, 28 de julho de 2010

Reviravolta

Andava lento e vago. Parava, em qualquer canto, na cozinha, ou numa calcada perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, e se assustava: era um corpo, um coração batia, seus olhos abertos enxergavam imagens que faziam sentido, faziam sentido, meu Deus!, o vento existia e o balançava levemente, balançava sua existência, sua matéria, boca que se abre em espanto, cabeça pendendo e se erguendo em ondulações, quase negações. Quanto mais negava, mais o sim, mais o ser.
Na cozinha, esqueceu-se de cortar o pão. Quando se lembrou, permaneceu inerte, as mãos escorregaram pelo balcão, e se não fossem as linhas finas que eram seus braços, cairiam – suas mãos cairiam porque já não lhe pertenciam, pertenciam a existência. E um tijolo, um azulejo existem tão altivamente quanto qualquer coisa que pulse. (Tomara que tudo que não tenha vida aparente na verdade tenha, e que não eu não esteja preparado, apenas, para perceber essa vida).
É que a tristeza o tomava de repente. Cotidianamente, já não se via sem ela, a não ser como um outro, alguém futuro, feliz, com outro corpo, outro tempo, outra ocupação do espaço. Tudo o atingia, o violentava. Imagens na televisão, desejos dos outros, lugares bonitos demais, boates, olhares vagos, intenções definidas – tudo era contra ele, minoria atenta, de olhos abertos, absortos.
...Quando se lembrou, permaneceu inerte, as mãos escorregaram pelo balcão. Insistiu um pouco mais nos seus delírios, em pensamentos maus...
...quando, de repente, a campainha tocou. E aconteceu algo incrível, uma reviravolta no enredo: era alguém que lhe segurava a mão, lhe prometia amor e lhe chamava para viver. Ele tinha duas opções: se lançar na felicidade desconhecida ou assumir seu completo despreparo para ser feliz.
Ele se lançou. Mas, como de fato não sabia nem ninguém haveria de ter paciência para lhe ensinar o que era a felicidade, foi abandonado e terminou sozinho mesmo.

5 comentários:

Isabella disse...

te amo.
so acho de vez em quando que em algum momento eu desaprendi a ser feliz.
me falta coragem.

Aline Sampin disse...

Me identifico com o que escreves, Luquinhas. Impressionante!
Engraçado como agora, depois de ler este lindo texto, gosto ainda mais de você...

LuCais disse...

1 - Adoro ler os comentarios de voces.
2 - Bella, merecemos um cafe, com calma, cotovelos na mesa, qualquer assunto.
3 - Aline. Sensacao de abraco forte e sorriso, em silencio mesmo, so o sorriso.

o choro da formiga disse...

eu amo tua palavra

Rosana Oliveira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.