domingo, 28 de março de 2010

Um fiapo de consciência

Não tinha força para se matar. Mas tinha fraqueza o suficiente para se deixar morrer. Certas manhãs, acordava dado ao abandono - os olhos percorrendo as coisas sem necessariamente entende-las; o corpo inteiro desperdiçando ações, desperdiçando tempo; o peito sendo cavado por algo lento e seco. Talvez a existência. A angústia de não encontrar não era pior que a dor de entender. Não encontrar-se o movia e, sendo deslocado, ganhava uma posição ideal para ser visto e para ver: seu apagamento o iluminava. Explodia a todo instante, como se o Sol houvesse sugado tudo em volta para se fazer em poeira de luz logo em seguida. De longe alguém repara o desparecimento de uma pequena estrela. Sim.
Mas perceber-se no mundo, ter uma noção plena, isso é que doía. Não saber, nas pessoas, o que é instinto e o que é abdução. Se o olhar cruel que alguém lhe lançara fora capitalismo, amém, que bom, tenho o que lutar contra. Mas se fora um olhar pré-humano?
Sonhou com toda sua podridão exposta. [som agudo de ógão|passado|presente|ele|eu] Quando acordou tinha diante de si um belo filme de Tarkovski: um elevador, ele tem poder; estudando com gente que ama, chora de emoção, até se dar conta do incrível contraste de tudo aquilo com a personalidade do professor, machista e cruel; sua masculinidade é ferida, ele odeia, ele é mau; ele quer o professor, que entrar na parte da casa que é secreta a todos; ele quer compartilhar seu desespero. Ninguém entenderia. Nem ele entende mais, apenas sabe. Sabe que o que lhe cava o peito lenta e secamente é o sonho. Tão palpável. Tudo claramente conectado, apesar da fala de sentido, tudo claramente conectado através de outra logica, a lógica do que sentia e sabia sem entender, como se as conexões, e não as imagens, fossem o que ele sabia da vida, fossem o mistério que ele guardava de si como se fosse dois. Dois não. Não, por favor. Sempre decorar ou organizar, a ou b e eu queria o c. Alguém me ame sem promessa. Ele lembra que já odiou. E lembra que não exatamente se sente perdido, abaixo, à margem. Ele É. De uma forma ou de outra. Não é preciso procurar, já me encontrei e estou perdido. É aí que estou. E nem estou nos ares como Deus punitivo, nem à frente como poeta incompreendido, nem abaixo como aquele que sabe de tudo, e muito menos ao lado como quem é feliz.
Atrás. Um pouco atrás. Esquecido, não sem lugar - este é o seu lugar. Gosta da História da Rússia, acha que eles sempre estiveram atrás e sempre passaram adiante de modos surpreendentes. Mas não há o que surpreender. Antes do básico. Ele tinha medo de... E medo de... E medo de dizer. Realmente. Tudo.

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