Depois de um sonho mau e da tristeza que se seguiu, fui até a Maré para assistir a Cia. de danças Lia Rodrigues. E eles disseram muito do que eu queria dizer. Eles superaram a falsa liberdade dos que se desprendem e tiram as roupas mas não se despem do que os forçaram a consumir. A crueldade gera segurança, as marcas, os padrões, as medidas, o poder. Não estou acima de ninguém, não assisto de fora, cada uma de minhas atitudes também está impregnada pelo espetácluo, o espetáculo que nos afastou do teatro e dos cinemas para representarmos, nós mesmos, pelas calçadas, pelas vitrines, pelas boates, pelas salas, pelas camas. E eu queria tanto atingir o ponto que separa instinto de conveniência: só assim saberia se sou feliz ou triste. Minha cidade é um produto, como tantas, pois bem - mas não me encontro na prateleira onde ela está sendo vendida. Não vou avisar. Quando comprarem me levarão de brinde e não vão gostar nada nada. Meu corpo conta outras histórias.
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