Havia um rapaz bonito, de olhos muito incisivos (tanto quando se projetavam para fora como quando pro pensamento), que trabalhava numa locadora que também vendia filmes. E havia um menino que, estando muito à toa, gostava de sentir o vento do Centro da cidade agredindo levemente sua pele e que passava na frente da locadora e se admirou certa vez ao ver o rapaz bonito, porque este tinha uma beleza triste de filme antigo que não agrada a qualquer um mas agradava bastante ao menino que, na sua arrogância de pessoa humilde – essa arrogância tão inerente aos humildes – pensou “parece triste, vou amá-lo e faze-lo feliz”, anestesiando-se da sua própria tristeza, esquecendo-se de que ainda não tinha prática de vida suficiente para trazer felicidade suficiente para ninguém.
O menino humilde quis comprar um filme do Woody Allen e, como não era bobo, quis comprar na loja do rapaz bonito. Ao chegar na loja, o procurou rapidamente, caminhou se fazendo de perdido, até ouvir uma voz por trás: “O senhor precisa de ajuda?”, ou alguma frase parecida. Era o rapaz bonito, com os olhos grandes e intensos, a barba bem desenhada, e um frescor de quem acabou de se banhar. “Você tem Interiores do Woody Allen?, o menino deve ter perguntado secamente. Sim, havia o DVD e, pagando à vista, recebeu 20% de desconto. “Esse filme é muito divertido”, comentou o rapaz, o que deixou o menino estupefato e um pouco maravilhado, porque o filme era muito triste (se esquecia de que ele próprio se divertia com as coisas tristes, não que risse, mas gostava de estar perto delas). Comprou o filme, foi-se embora e voltou dias depois, acompanhado do seu melhor amigo. Diante da vitrine:
- Vou te mostrar quem é o rapaz da locadora.
- Eu já vi.
- ...
- É aquele ali, não é?
- É. Como é que você sabia?
- Ele tem cara de que é só.
O melhor amigo amava muito o menino. Sós, talvez, fossem eles dois, e não o rapaz da locadora.
Mais tarde, o menino procurou pelo rapaz na internet, nesses sites de relacionamento. Sabia ou imaginava que o rapaz gostava de Hitchcock, Almodóvar e Woddy Allen: digitou os três nomes e não é que o rapaz aparece!, o terceiro da lista. O menino leu suas informações pessoais, viu suas fotos e, no dia seguinte, foi na locadora acompanhado de uma amiga inteligente e estimulante. O rapaz lembrou-se do menino, que lera seu perfil na internet. Conversaram rapidamente e, a partir daí mantiveram contato pela internet, até marcarem um encontro na lanhouse da rua Rodrigo Silva.
As palavras, às vezes, acabam antes das histórias. E antes que as palavras acabem, é preciso que você que lê saiba do que há depois, depois das palavras. É que as histórias escritas têm estilo. Olha: eles até marcariam um outro encontro no Paço Imperial, mas o que é fato é que o rapaz da locadora iria embora para outro país. E ele não era apenas dois olhos intensos e um arzinho cristalino e dvds de Hitchcock: era uma pessoa. Não parecia triste: tinha uma dor real. Já sabia tanto da vida, talvez se decidisse um dia não querer saber de nada e encontrar a paz. Já o menino que não sabia de nada saberia de tudo. Sua pureza não o impediria de ser mau.
No dia do encontro marcado, o rapaz sairia do trabalho, iria para a lanhouse e esperaria o menino. O menino iria assistir uma peça estrelada por um antigo amor acompanhado do seu ex-namorado e de seu melhor amigo apaixonado, depois iria encontrar o rapaz. O rapaz da locadora esperou com seu rosto plácido, seu olhos intensos, seu leve sorriso meio esperançoso sedutor e certeiro. Esperou mais um pouco, até que a placidez se desfizesse um pouco. Esperou mais um pouco. Eu não fui.
"Ele gostava de Hitchcock e trabalhava na São José.
Andava engraçado, tinha os olhos grandes, e isso basta.
A alma transbordava, vazava pela palidez, pelos pêlos, e isso basta."
Um comentário:
"(...) As palavras, às vezes, acabam antes das histórias. (...)"
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