quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Aproximação lenta

“Gradualmente e, depois, de repente”, como meu amigo disse que ouviu em algum lugar. Temo a aproximação gradativa do choque. Como nas cenas de atropelamento do cinema, espero com um grito abafado, diante do perigo; espero com a resignação arrogante dos que estagnam paralisando consigo tudo o que está em volta, dos que com sofrimento e humildade, catalisam as atenções.

Vi certa vez um terreno com uma rachadura no meio. A rachadura, então, tornou-se uma fenda que tornou-se uma depressão grande que, a cada dia, arrasta para dentro de si o que está em volta. O vão cresce para os lados porque também se aprofunda: quanto mais fundo, mais necessidade tem de se agarrar e puxar o que está em volta para compor suas paredes. Na natureza, porém, há cumplicidade: as flores aceitam e se deixam arrastar por curiosidade em saber o que há debaixo delas, para saber se o que sentem nas suas raízes combina com o que verão. Não sairão nunca mais do buraco. Se pelo menos elas se lembrassem de quando eram sementes, mas elas não lembram, eu não lembro. De qualquer forma, é mais agradável ver raízes à distância que se lembrar delas.

O terreno um dia será só vão. Na gana de se aprofundar em si vai se perder em si. E as flores, então, desejarão o céu, se esquecendo de que um dia também já o foram.

Há quem regue.

Um comentário:

Tamires Nascimento disse...

O que verão? No verão... (Oh piada infame!)... verão corpos dourados (ao som de Debora Blando) e de repente uma rachadura e seriam sugadas, e serão... e tudo é breu.... e tudo é oq nunca fora... ou talvez já tenha sido... eu não lembro, e você?